{"id":236702,"date":"2022-06-14T15:34:38","date_gmt":"2022-06-14T13:34:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2022\/06\/14\/no-medio-do-medio-236702\/"},"modified":"2022-07-09T12:53:44","modified_gmt":"2022-07-09T10:53:44","slug":"no-medio-do-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2022\/06\/14\/no-medio-do-medio-236702\/","title":{"rendered":"No meio do meio"},"content":{"rendered":"<p>Existem tr\u00eas espa\u00e7os importantes no teatro. Os est\u00e1bulos, o palco e o que est\u00e1 no meio. Os tr\u00eas s\u00e3o irrelevantes no concreto e a sua import\u00e2ncia, tal como a da pol\u00edtica, tem mais a ver com o que permitem do que com o que s\u00e3o. Os tr\u00eas s\u00e3o permut\u00e1veis, e no mundo contempor\u00e2neo h\u00e1 um certo gosto por dar a volta e pensar que os espectadores podem ser colocados no lugar dos artistas. Mas \u00e9 apenas mais uma pe\u00e7a da confus\u00e3o de n\u00e3o poder ver o presente do exterior. Pode-se mudar o estado do p\u00fablico, mas este nunca deixar\u00e1 de ser um p\u00fablico.<\/p><p>Digamos que nos tempos contempor\u00e2neos, como no passado, a tend\u00eancia \u00e9 dar import\u00e2ncia ao palco enquanto se diluem os seus contornos. Porque ainda \u00e9 o espa\u00e7o central, porque parece que \u00e9 aqui que as coisas acontecem. Porque todos querem olhar para esse lugar e tamb\u00e9m porque os holofotes iluminam essa parte. E temos tanto que olhar para a luz. O resto parece ser assustador. Desde o romantismo que existe esta ideia de que o importante \u00e9 o que acontece no palco e ainda hoje n\u00e3o nos libertamos deste h\u00e1bito. Como se tudo o resto devesse ser subordinado a essa import\u00e2ncia. \u00c9 uma tend\u00eancia absolutista, eu ia dizer Wagneriano, mas porqu\u00ea incomodar-se agora com a invas\u00e3o da Pol\u00f3nia. A p\u00f3s-modernidade e o p\u00f3s-drama conseguiram mudar as formas do palco, deslocaram-no, mas o comportamento \u00e9 o mesmo.<\/p><p>O que \u00e9 certo \u00e9 que existem tr\u00eas espa\u00e7os como os tr\u00eas estados dessa rep\u00fablica que deram origem a um novo imp\u00e9rio. E neste tipo de tri\u00e2ngulo que s\u00f3 se torna um trio quando a temperatura \u00e9 suficientemente alta, h\u00e1 nuances: o palco onde est\u00e3o os artistas e o p\u00e1tio onde est\u00e3o os espectadores s\u00e3o espa\u00e7os f\u00edsicos. Podem ser alterados, embora n\u00e3o seja a mesma coisa sentar-se no Sal\u00f3n Teatro como nas sedes do audit\u00f3rio de Abanca. E os espectadores podem sentar-se no corredor ou as actrizes n\u00e3o podem sair do camarim sem que as suas fun\u00e7\u00f5es sejam alteradas. Mas o terceiro espa\u00e7o, o espa\u00e7o interm\u00e9dio entre uma parte e a outra, \u00e9 um territ\u00f3rio imagin\u00e1rio. Ah! Imagin\u00e1rio &#8211; que palavra. Imagin\u00e1rio significa que n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o nos livros de contabilidade ou que podemos escrever uma hist\u00f3ria completa de teatro sem que ningu\u00e9m reconhe\u00e7a a sua exist\u00eancia.<\/p><p>Acontece quase todos os dias que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 escrita do ponto de vista do p\u00fablico. Que a audi\u00eancia n\u00e3o tem hist\u00f3ria ou que est\u00e1 apenas ali sentada: sem forma, difusa ou l\u00edquida. Talvez apenas para servir como um elemento humanizador. Como todas aquelas pessoas que os partidos colocam atr\u00e1s dos l\u00edderes em com\u00edcios para fazer uma cortina menos fria do que um log\u00f3tipo. E se a hist\u00f3ria dos espectadores n\u00e3o \u00e9 relevante para o teatro, como pode o espa\u00e7o entre um int\u00e9rprete e o seu p\u00fablico ser relevante? Mas \u00e9 nesse espa\u00e7o onde as luzes come\u00e7am a apagar-se &#8211; para usar uma imagem rom\u00e2ntica &#8211; que tudo acontece no teatro. Onde cada organismo ocupa o seu lugar definitivo. E um dia vou ter de me levantar do meu lugar e come\u00e7ar a escrever sobre esse lugar.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 transgress\u00e3o para um espectador de teatro \u00e9 n\u00e3o assistir ao palco. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 para assistir \u00e0 reac\u00e7\u00e3o do resto da audi\u00eancia. O revolucion\u00e1rio \u00e9 olhar para o espa\u00e7o entre o palco e os assentos. Uma terra de ningu\u00e9m onde tudo acontece.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":236669,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[195],"tags":[],"class_list":["post-236702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatiga-ocular-pt-pt"],"acf":[],"post_template":"reportaxe","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"Existem tr\u00eas espa\u00e7os importantes no teatro. Os est\u00e1bulos, o palco e o que est\u00e1 no meio. Os tr\u00eas s\u00e3o irrelevantes no concreto e a sua import\u00e2ncia, tal como a da pol\u00edtica, tem mais a ver com o que permitem do que com o que s\u00e3o. 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