{"id":271545,"date":"2022-09-06T14:13:57","date_gmt":"2022-09-06T12:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2022\/09\/06\/271315-271545\/"},"modified":"2022-09-06T15:34:11","modified_gmt":"2022-09-06T13:34:11","slug":"271315","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2022\/09\/06\/271315-271545\/","title":{"rendered":"O escritor que retratou a Galicia do s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<p>A biografia de Roberto Vidal Bola\u00f1o \u00e9 curta. Nasceu a 25 de Julho pouco depois da pirotecnia festiva de Compostela e desapareceu 52 anos depois, com uma linha de vida em que havia lugar para muitas novidades, muitas estreias e as inevit\u00e1veis desilus\u00f5es, porque o mundo, por muito bom que seja, nunca \u00e9 t\u00e3o bom como ele queria que fosse&nbsp;<\/p><p>Vidal Bola\u00f1o era um homem pr\u00e1tico. Come\u00e7ou a trabalhar quando crian\u00e7a, estudou quase em paralelo e a sua primeira inten\u00e7\u00e3o era estudar cinema. Eram os tempos em que a escola de cinema em Madrid era um ninho de pessoas que iam contra a mar\u00e9 do regime de Franco. Mas a escola fechou precisamente quando a RVB estava pronta para a frequentar. Quase ao mesmo tempo, impulsionado pelo desejo de contar hist\u00f3rias e por alguns autos esc\u00e9nicos que foram apresentados nos festivais de Compostela, come\u00e7ou a fazer teatro, mantendo uma vida de trabalho paralela.<\/p><p>Como ele pr\u00f3prio diz, tinha estudado para ter uma &#8220;categoria perfeita de contabilista&#8221; e, depois de ter passado por v\u00e1rias ocupa\u00e7\u00f5es como mo\u00e7o de recados, chegou a um banco quase ao mesmo tempo que ganhou o seu primeiro pr\u00e9mio Abrente, para&nbsp;<em>Bailadela da morte ditosa<\/em>. Os anos setenta estavam a come\u00e7ar, quando, embora pudesse parecer o contr\u00e1rio, uma mudan\u00e7a de \u00e9poca estava a chegar.<\/p><p>Vidal Bola\u00f1o fundou o Teatro do Antroido e iniciou a tarefa de construir uma ponte entre um passado sem palcos convencionais e um futuro ainda por imaginar. Para o dramaturgo, a chave para conciliar dois espa\u00e7os imagin\u00e1rios reside nas manifesta\u00e7\u00f5es para-teatrais que a cultura popular preservou: entre elas, o pr\u00f3prio carnaval. Ele procurou reconectar o espectador n\u00e3o treinado com as \u00fanicas express\u00f5es que poderiam ser familiares. Esperava que, a partir da\u00ed, houvesse um territ\u00f3rio a conquistar em palco.<\/p><p>Teatro de rua, interven\u00e7\u00f5es, ruadas e outros tipos de celebra\u00e7\u00f5es tornaram-se o primeiro instrumento de um teatro que, sendo popular, se afastou do que ent\u00e3o era entendido pelo mesmo nome.<\/p><p>Era um teatro feito \u00e0 medida para um tempo, para um pa\u00eds a ser constru\u00eddo, com um imagin\u00e1rio ainda temeroso e necessitado de algu\u00e9m que estivesse a fazer, ao mesmo tempo que seduzia, uma certa did\u00e1ctica do pr\u00f3prio acto teatral. O Teatro Antroido, cujo n\u00facleo inicial foi o pr\u00f3prio Bola\u00f1o, Rodrigo Roel e Laura Ponte, e no qual Xaqu\u00edn G. Marcos tamb\u00e9m participou, tentou nessa primeira fase montar espect\u00e1culos ligados ao festivo e ao popular, para gradualmente entrar noutro tipo de teatro mais marcado pelas condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais da transi\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Quer quisesse ou n\u00e3o, a RVB estava destinada a ser a autora do grupo, e esta necessidade inicial acabaria por se tornar um processo operacional quase permanente. Autor, en\u00e7enador, actor, iluminador e tudo o mais que fosse necess\u00e1rio.<\/p><p><strong>Teatro Combativo<\/strong><\/p><p>Antroido tinha visto com os tempos e um teatro mais combativo apareceu em Vidal Bola\u00f1o em sentidos diferentes. Acontece em&nbsp;<em>Laudamuco, se\u00f1or de ningures<\/em>, onde, para al\u00e9m do comportamento do tirano, Bola\u00f1o conta o comportamento resignado do seu criado. A Galiza mudou muito rapidamente em meados dos anos setenta, e as circunst\u00e2ncias da \u00e9poca fizeram com que Antroido amadurecesse como empresa e Roberto Vidal Bola\u00f1o fosse despedido do banco onde trabalhava.<\/p><p>O dramaturgo decide dar um passo em frente e ganhar a vida a partir do teatro. \u00c9 um pequeno passo para ele e um grande passo para o pa\u00eds. Explicou-o mil vezes pela for\u00e7a de factos simples: a empresa viajou atrav\u00e9s de uma rede volunt\u00e1ria de espect\u00e1culos promovidos por associa\u00e7\u00f5es culturais e de bairro, os espa\u00e7os das caixas econ\u00f3micas e das c\u00e2maras municipais. Na maioria dos casos, sem remunera\u00e7\u00e3o, mas com alguns jantares para toda a empresa. Bola\u00f1o pensou que o dinheiro que as associa\u00e7\u00f5es investiram nos jantares era melhor gasto no pagamento \u00e0 empresa: &#8220;E n\u00f3s com\u00ea-los-\u00edamos pelo caminho&#8221;. Um homem pr\u00e1tico.<\/p><p>A Galiza est\u00e1 prestes a virar a esquina da d\u00e9cada. Vai de um espa\u00e7o em constru\u00e7\u00e3o para um territ\u00f3rio urbanizado. Vai de coisas que s\u00e3o poss\u00edveis a coisas que simplesmente o s\u00e3o. \u00c0 medida que a nova d\u00e9cada avan\u00e7a, a RVB participa no lan\u00e7amento do teatro institucional galego. O Centro Dram\u00e1tico Galego abre em 1984 e o dramaturgo \u00e9 o primeiro autor galego a estrear e dirigir a sua pr\u00f3pria pe\u00e7a.&nbsp;<em>Agasallo de sombras<\/em>&nbsp;pode ser lido agora como uma pe\u00e7a mais ou menos convencional, mas era uma leitura radical da vida de Rosal\u00eda de Castro. Bola\u00f1o interpretou a &#8220;santi\u00f1a&#8221; para a tornar mais humana. Mas n\u00e3o era da\u00ed que viria o seu desagrado. Como explicou numa entrevista, uma pol\u00e9mica com um conselheiro levou-o para longe do teatro. Ele estava descontente e os descontentamentos da RVB eram sempre graves.<\/p><p>Roberto Vidal Bola\u00f1o \u00e9 retirado da linha da frente do teatro. N\u00e3o chama nem \u00e9 chamado muito, excepto para coisas ocasionais. O regresso ao palco demorou cerca de oito anos. J\u00e1 nos anos noventa e o lugar onde o mundo se chama Galiza tinha mudado consideravelmente, embora nem sempre para melhor. Se o pa\u00eds fosse diferente, o autor n\u00e3o poderia ser o mesmo. O regresso da RVB ao palco da luta foi progressivo. Em 1991 ganhou o pr\u00e9mio \u00c1lvaro Cunqueiro, o pr\u00e9mio mais importante da \u00e9poca.&nbsp;<em>Saxo tenor<\/em>&nbsp;\u00e9 uma pe\u00e7a de teatro sobre a Galiza que existe: quase lumpen sub\u00farbios atrav\u00e9s dos quais voam os escolhidos do centro. N\u00e3o s\u00e3o suficientemente altos para causar trag\u00e9dias, causam infort\u00fanios.<\/p><p>O pr\u00e9mio e a colabora\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9n Quint\u00e1ns servem para criar a empresa definitiva da RVB. O nome \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es: Teatro do Aqu\u00ed. Bola\u00f1o foi muito leal a esta declara\u00e7\u00e3o e procurou um teatro que, sem deixar de ser para a maioria, oferecesse um espelho no qual se pudesse olhar para si pr\u00f3prio. Sem deixar de utilizar os seus pr\u00f3prios materiais, os argumentos em m\u00e3os, uma hist\u00f3ria digna de ser contada e que explica algo sobre n\u00f3s est\u00e1 organizada em coro&nbsp;<\/p><p><strong>Maturidade<\/strong><\/p><p>Vidal Bola\u00f1o entra numa fase de maturidade apesar de algum descontentamento com a profiss\u00e3o devido ao seu dever de ser, para al\u00e9m de tudo o mais que \u00e9 normalmente listado, um empres\u00e1rio teatral. Isso e o facto de ter ganho pr\u00e9mios por pe\u00e7as como&nbsp;<em>As actas oscuras<\/em>, que n\u00e3o foram encenadas como se afirma no como indicado nos termos de refer\u00eancia.<\/p><p>Mesmo com todas estas coisas, o Teatro do Aqu\u00ed tem vindo a encadear os seus espect\u00e1culos, interessando-se por textos de Otero Pedrayo (<em>O desengano do prioiro<\/em>) ou por textos divertidos como O\u00e9,\u00a0<em>O\u00e9, o\u00e9, o\u00e9<\/em>, de Maxi Rodr\u00edguez. Bem nos anos noventa, quase na fronteira com outra d\u00e9cada, a RVB decidiu ironizar e escrever tr\u00eas com\u00e9dias sobre o presente menos confort\u00e1vel.\u00a0<em>Anxeli\u00f1os<\/em>,\u00a0<em>Criaturas<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Animali\u00f1os<\/em>\u00a0s\u00e3o para rir enquanto observamos o retrato de grupo em que nos encontramos. Mas, ao mesmo tempo, escreve e estreia um dos principais dramas escritos na Galiza contempor\u00e2nea,\u00a0<em>Rastros<\/em>. Ainda dirige e adapta para o Centro Dram\u00e1tico Galego textos t\u00e3o definitivos como a Rosal\u00eda com a qual Otero Pedrayo pretendia escrever uma biografia de palco do escritor. Entre uma coisa e outra, conseguiu completar o retrato de um pa\u00eds que, segundo o seu trabalho, \u00e9 mais f\u00e1cil de imaginar do que de habitar.<\/p><div class=\"contentlink  operational-element\" rel=\"{&quot;action&quot;:&quot;opennew&quot;,&quot;payload&quot;:269445}\">\n\n\t\t\t\t\t<div class=\"contentlink__label\">Lecturas relacionadas<\/div>\n\t\t\n\t\t\t\t\t<div class=\"contentlink__thumbnail\">\n\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/C6C54FF1-E847-43CD-A365-D972BAFB89C1-800x600.jpeg\" class=\"contentlink__thumbnail__image\" alt=\"\">\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<div class=\"contentlink__body\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"article-locator\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"article-locator__first\">Entrevista<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\n\t\t\t<h3 class=\"contentlink__title\">O teatro galego \u00e9 conservador com os dramaturgos<\/h3>\n\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"contentlink__content\">\n\t\t\t\t\t<p>Entrevista con Roberto Vidal Bola\u00f1o, publicada no 2002<\/p>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\n\t\t<div class=\"card-footer contentlink__footer\">\n\t\t\t<div class=\"btn contentlink__button\">Ir ao conte\u00fado<\/div>\n\t\t<\/div>\n\n\t<\/div><p class=\"wp-block-verse\">Publicado en La Voz de Galicia. 11 de maio de 2013. Especial Letras Galegas<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Vidal Bola\u00f1o queria que a Galiza tivesse o seu pr\u00f3prio teatro com as suas pr\u00f3prias parcelas. Definiu uma forma de escrever para o palco e a sua decis\u00e3o foi decisiva para o lan\u00e7amento do teatro profissional galego. Havia um teatro a ser inventado e algu\u00e9m tinha de o come\u00e7ar a fazer. Foi Roberto Vidal Bola\u00f1o quem come\u00e7ou a articular um teatro galego auto-suficiente, capaz de se explicar enquanto explicava o pa\u00eds a que pertencia. Um teatro interessado em alcan\u00e7ar maiorias e em ligar as l\u00ednguas que viriam com as que tinham sobrevivido aos anos de repress\u00e3o. RVB era um homem pr\u00e1tico e um dramaturgo multitarefa. Ele era precoce e s\u00e9rio, argumentativo e ir\u00f3nico. Transformou uma dedica\u00e7\u00e3o num of\u00edcio, mas n\u00e3o era magia ou poder sindical: era teimosia e habilidade.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":271336,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[195],"tags":[],"class_list":["post-271545","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatiga-ocular-pt-pt"],"acf":[],"post_template":"reportaxe","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"A biografia de Roberto Vidal Bola\u00f1o \u00e9 curta. 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