{"id":296500,"date":"2022-11-08T11:30:57","date_gmt":"2022-11-08T10:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2022\/11\/08\/chevere-rememoriza-296500\/"},"modified":"2022-11-08T12:06:39","modified_gmt":"2022-11-08T11:06:39","slug":"chevere-rememoriza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2022\/11\/08\/chevere-rememoriza-296500\/","title":{"rendered":"Ch\u00e9vere rememora"},"content":{"rendered":"<p>Ch\u00e9vere rememora e n\u00f3s atendemos. Ele recorda e a par\u00f3dia foi at\u00e9 eles, porque n\u00e3o h\u00e1 melhor maneira de explicar o mundo do que como uma par\u00f3dia que admite apenas o humor desesperado. O humor \u00e9 deles, mas o desespero a quem pertence.<\/p><p>Talvez o tempo n\u00e3o exista. Talvez seja uma dimens\u00e3o manipul\u00e1vel. Mas \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o acreditar na sua exist\u00eancia quando somos colocados perante uma refer\u00eancia reconhec\u00edvel, quando somos confrontados com as mesmas ac\u00e7\u00f5es com um certo n\u00famero de anos no meio. Sem querer aprofundar demasiado: as mesmas coisas n\u00e3o significam a mesma coisa em momentos diferentes no tempo.<\/p><p>Ch\u00e9vere faz lembrar e a palavra pode ser usada para explicar que a empresa est\u00e1 a olhar para um espelho. O espelho devolve uma imagem que deveria ser anterior mas que est\u00e1 presente, ou pode ser usado para explicar que est\u00e1 a fazer mem\u00f3ria perante novos p\u00fablicos: alimenta o paradoxo de explicar o passado a pessoas que n\u00e3o passaram por ele.<\/p><p>Tamb\u00e9m surpreendente \u00e9 o esp\u00edrito com que Ch\u00e9vere define a recupera\u00e7\u00e3o do&nbsp;<em>Rio Bravo<\/em>&nbsp;ou&nbsp;<em>Annus Horribilis<\/em>&nbsp;como arqueologia porque, no fundo, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que eles querem dar um salto conceptual dif\u00edcil: querem descobrir como eram e querem faz\u00ea-lo enquanto mergulham naquele presente cont\u00ednuo que \u00e9 uma pe\u00e7a de teatro. Est\u00e3o na balan\u00e7a de voltar atr\u00e1s sem desfigurar o presente, de agir agora sem desrespeitar o passado.<\/p><p>Os espectadores s\u00e3o sujeitos \u00e0 mesma tens\u00e3o de opostos. Mas apenas aqueles que mant\u00eam a imagem dessas duas pe\u00e7as que agora come\u00e7ar\u00e3o a sobrepor-se na imprecis\u00e3o com que a mem\u00f3ria se comporta.<\/p><p>H\u00e1 trinta anos atr\u00e1s eu pensava que o teatro devia ser feito como os iugoslavos jogavam basquetebol. Com panach\u00ea, imagina\u00e7\u00e3o e sem ortodoxia. Mais profundidade do que extens\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio um pouco de bochecha. E para n\u00e3o perder a face na pe\u00e7a. O Ch\u00e9vere encaixa muito bem nessas contas. Agora n\u00e3o h\u00e1 Jugosl\u00e1via. Continuo a pensar mais ou menos o mesmo. O Ch\u00e9vere ruminava atrav\u00e9s dos sinais, fundava o humor, fazia assaltos po\u00e9ticos e trope\u00e7ava em algumas ideias que n\u00e3o tinham tempo para o p\u00fablico amadurecer com elas.<\/p><p>Seguindo a traject\u00f3ria de Ch\u00e9vere, entre Rio Bravo e Cidad\u00e3o, por exemplo, ter\u00edamos de concluir que o mal n\u00e3o tem planos para se acalmar, mas tamb\u00e9m ter\u00edamos de concluir que a empresa n\u00e3o abandonou a par\u00f3dia como l\u00edngua para explicar o mundo. Foi procur\u00e1-lo noutro lugar. Chegou-se a uma conclus\u00e3o que se mant\u00e9m v\u00e1lida durante os trinta anos que se passaram desde que a empresa estreou. Trinta anos e tr\u00eas crises, trinta anos de na\u00e7\u00e3o bons\u00e1i, trinta anos de cultura aut\u00f3noma, tr\u00eas d\u00e9cadas de teatro um pouco relutante em entrar em confronto com o p\u00fablico. Pus trinta anos e cada um pode escrever o transe que supunha.<\/p><p>Se Ch\u00e9vere quisesse fazer uma verdadeira par\u00f3dia, n\u00e3o tinha outra escolha sen\u00e3o aproximar-se da realidade. Porque nestes trinta anos, se h\u00e1 uma coisa que se tornou clara, \u00e9 que a realidade se tornou uma par\u00f3dia. Uma m\u00e1 c\u00f3pia de si mesmo com aqueles tr\u00eas segundos de atraso que mostram a manipula\u00e7\u00e3o. Ch\u00e9vere viu-o antes. Porque a par\u00f3dia j\u00e1 \u00e9 a \u00fanica forma que nos explica completamente. Mesmo no que \u00e9 par\u00f3dico sobre a frase.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ch\u00e9vere rememora e n\u00f3s atendemos. Ele recorda e a par\u00f3dia foi at\u00e9 eles, porque n\u00e3o h\u00e1 melhor maneira de explicar o mundo do que como uma par\u00f3dia que admite apenas o humor desesperado. O humor \u00e9 deles, mas o desespero a quem pertence. Talvez o tempo n\u00e3o exista. Talvez seja uma dimens\u00e3o manipul\u00e1vel. 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