{"id":300464,"date":"2022-11-11T14:27:32","date_gmt":"2022-11-11T13:27:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2022\/11\/11\/sen-memoria-non-nos-queda-paraiso-300464\/"},"modified":"2022-11-11T14:52:43","modified_gmt":"2022-11-11T13:52:43","slug":"sen-memoria-non-nos-queda-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2022\/11\/11\/sen-memoria-non-nos-queda-paraiso-300464\/","title":{"rendered":"Sen mem\u00f3ria n\u0101o nos fica para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p>Em Muros j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 para\u00edso. Agora h\u00e1 um supermercado. Fomos mudando as salas de festa por lojas e&nbsp;&nbsp;temos que entender que mudamos um modelo de lazer de se tocar por um de gastar. Esse \u00e9 o ponto de partida para a \u00faltima obra de Ch\u00e9vere, Eroski Para\u00edso. Que, como tudo nestes dias, sucede na Transi\u00e7\u00e3o. Na que vai do passado \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p><p>A mem\u00f3ria \u00e9 uma forma de fic\u00e7\u00e3o. Como o ego. Como as verdades a m\u00e9dias. Como o dinheiro. Prefere a coer\u00eancia \u00e0 realidade, \u00e9 mais leal que fiel. Se apress\u00e1ssemos muito o argumento teria que dizer que a mem\u00f3ria \u00e9 a forma maior de fic\u00e7\u00e3o porque consegue levar aos lugares que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o e, uma e outra vez, fazer passar as hist\u00f3rias por realidades. A mem\u00f3ria \u00e9 eficaz porque \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Porque todo o que se conta \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. E a mem\u00f3ria conta.<\/p><p>Ch\u00e9vere lhe rasca \u00e0 mem\u00f3ria em Eroski Para\u00edso. Encontra-se de frente com ela enquanto procura os sinais do pertence. A nova montagem de Ch\u00e9vere documenta um tempo que foi. F\u00e1-lo por contraste porque enquanto resgata as imagens do passado est\u00e1 a obrigar aos&nbsp;&nbsp;&nbsp;espectadores a fazer compara\u00e7\u00f5es com o presente. N\u00e3o \u00e9 que tenha que sacar conclus\u00f5es, \u00e9 que est\u00e3o a\u00ed. Nem agora, nem ent\u00e3o. O presente \u00e9 mau e n\u00e3o h\u00e1 passado bom. O passado s\u00f3 \u00e9 anterior. Mas passado e mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa por mais que tenha muit\u00edssima gente confundindo, pode que intencionalmente, os dois termos.<\/p><p>Eroski Para\u00edso reconstrui um passado. \u00c9 um passado pr\u00f3ximo. De imediatamente dantes a que tivesse casas geminados em Galiza. Um pouco dantes das ombreiras nas americanas. Um minuto dantes de que o mundo deixasse de ser anal\u00f3gico. Agora pode parecer outra \u00e9poca, mas \u00e9 esta mesma de agora sem Twitter. Ch\u00e9vere prop\u00f5e uma hist\u00f3ria na que um filme quer reconstruir um momento. Assim \u00e9 como opera a mem\u00f3ria, rebuscando nos dados e organizando os sucedidos como uma imagem em movimento. Assim \u00e9 como a mem\u00f3ria nos conta o passado.<\/p><p>Ch\u00e9vere faz reconstru\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o biografia. Toma o ponto de partida e o ponto de chegada. O de em meio \u00e9 sabido do espectador, ainda que n\u00e3o pelo telejornal. O que h\u00e1 em meio entre a sala de festas Para\u00edso e o supermercado que agora ocupa seu lugar em Muros \u00e9 essa derrota anunciada como vit\u00f3ria: a do engano de classes, a do para\u00edso da classe m\u00e9dia, a da Galiza asfaltada. A companhia explica o agora e o dantes na mesma linha, como uma consequ\u00eancia interpretada. Como um flashback ao vivo e pode que esta seja a \u00fanica maneira realista do fazer: ao passado s\u00f3 se viaja desde aqui. O resto \u00e9 ci\u00eancia fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 o que prop\u00f5e Ch\u00e9vere. O que prop\u00f5e a companhia \u00e9 dobrar o tempo e fazer que dois momentos coincidam no mesmo espa\u00e7o. Nesse territ\u00f3rio sucedem muitas hist\u00f3rias, muitas delas familiares, as mais delas sentimentais, h\u00e1 algumas c\u00f3micas e algumas outras que amea\u00e7am com drama. Mas tudo est\u00e1 contido por essa dist\u00e2ncia que a mem\u00f3ria imp\u00f5e aos factos. Essa dist\u00e2ncia que em ocasi\u00f5es parece amabilidade e que tamb\u00e9m pode se fazer passar por objetividade hist\u00f3rica. Eroski Para\u00edso maneja-se nessa dist\u00e2ncia. A dist\u00e2ncia adequada.<\/p><p>Essa dist\u00e2ncia entre a recupera\u00e7\u00e3o em s\u00e9rio das ra\u00edzes e deixar que a mem\u00f3ria se aproprie de certa comicidade. Na obra, Ch\u00e9vere inclina-se mais a fazer com\u00e9dia. Tamb\u00e9m n\u00e3o ligeira. Tem sua parte de sentimental e quase nada de par\u00f3dia, apesar de que vai arrimando essa linguagem, t\u00e3o usual na companhia. Em verdadeiro sentido,&nbsp;<em>Eroski Para\u00eds<\/em>o utiliza as armas da par\u00f3dia para chegar a outro g\u00e9nero. Como se no caminho de rebuscar o passado sempre aparecessem umas fotos velhas e n\u00e3o tenha maneira de ser duros com elas. A obra inicia uma sorte de procura sobre voltar ao lugar ao que se pertenceu e encontra que a mem\u00f3ria \u00e9 m\u00e1 de guiar. Pode ser que o material do que nasce a obra, as viv\u00eancias dos vizinhos de Muros, acheguen contra esse lado. Pode ser esse verniz com o que a mem\u00f3ria mobila as hist\u00f3rias ou pode ser que essas hist\u00f3rias ou se olham assim ou se deixam descansar em paz. S\u00e3o assuntos muito s\u00e9rios como para fazer um drama com eles. A obra procura no detalhe o referendo de uma realidade que foi. Porque Ch\u00e9vere tomada como ponto de partida um espa\u00e7o e umas experi\u00eancias reconhec\u00edvel: dances de ponta em alvo e sandes de calamares. Casais gr\u00e1vidas, pais que emigram para trabalhar com filhas que emigram para estudar. Bem olhado, a vida mesma de Galiza. Ou qui\u00e7\u00e1 n\u00e3o. Ter\u00e1 uma classe que n\u00e3o se senta reconhecida nesta hist\u00f3ria para al\u00e9m do folclore ou do humor. Est\u00e1 tudo neste relato que algu\u00e9m est\u00e1 a reconstruir para o cinema e ainda assim Ch\u00e9vere n\u00e3o quer ir ao documento. Porque, igual que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o passado, o teatro n\u00e3o \u00e9 a realidade.&nbsp;<\/p><p>Com a mem\u00f3ria passa-nos como aos Estados Unidos com o general Noriega. Pode ser m\u00e1, retorcida ou traidora. Pode ser a pior do mundo, mas \u00e9 a nossa.&nbsp;<em>Eroski Para\u00edso<\/em>&nbsp;toma prestadas umas hist\u00f3rias e move-as com ligeireza e com humor mas quase sem par\u00f3dia. Poderia ser que sem par\u00f3dia e sem nostalgia. Mas essa mat\u00e9ria l\u00edquida que \u00e9 a mem\u00f3ria se resiste muito a ser considerada sem essa \u00faltima p\u00e1tina. A obra define uma linha mais de fundo, qui\u00e7\u00e1 como uma consequ\u00eancia, de como se movem as m\u00e1quinas do passado para se converter em narra\u00e7\u00e3o: a mem\u00f3ria coletiva \u00e9 mais \u00e1cida que a individual.<\/p><p class=\"wp-block-verse\">Publicado no T\u00e1boa Redonda. El Progreso. 11 de avril 2016<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Muros j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 para\u00edso. Agora h\u00e1 um supermercado. Fomos mudando as salas de festa por lojas e&nbsp;&nbsp;temos que entender que mudamos um modelo de lazer de se tocar por um de gastar. Esse \u00e9 o ponto de partida para a \u00faltima obra de Ch\u00e9vere, Eroski Para\u00edso. 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