{"id":309722,"date":"2022-11-25T13:47:32","date_gmt":"2022-11-25T12:47:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2022\/11\/25\/a-4-309722\/"},"modified":"2022-11-25T14:52:31","modified_gmt":"2022-11-25T13:52:31","slug":"a-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2022\/11\/25\/a-4-309722\/","title":{"rendered":"A moqueta da cultura (2018)"},"content":{"rendered":"<p>O que passava por riba do cemento cultural daqueles anos era, ao mesmo tempo, a conclus\u00e3o de que o voluntarismo n\u00e3o podia assumir a catividade e a identidade de toda uma cultura, e a constata\u00e7\u00e3o de fundo de que longe do suporte p\u00fablico n\u00e3o havia case movimento para que um sector cultural ganhasse capacidade operativa, campo de manobra, ganhasse um horizonte que permitira a autodetermina\u00e7\u00e3o. E autodetermina\u00e7\u00e3o quer dizer: ter p\u00fablico pr\u00f3prio e ter capacidade econ\u00f3mica. Em realidade \u00e9 uma \u00fanica circunst\u00e2ncia porque na sociedade contempor\u00e2nea ter p\u00fablico quer dizer ter capacidade econ\u00f3mica.<\/p><p>Culturgal leva exemplificando o sistema cultural galego da \u00faltima d\u00e9cada. Que sim, que o h\u00e1, que \u00e9 frustrante porque evid\u00eancia cada vez mais a falta de m\u00fasculo para apresentar por sim mesmo. Culturgal explica em tr\u00eas dias o que relat\u00f3rios completos n\u00e3o querem sintetizar: a cultura galega tem oferta suficiente para assumir as necessidades de um pa\u00eds, mas a demanda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o rotunda. Por explic\u00e1-lo sem agress\u00f5es. A oferta da cultura do pa\u00eds \u00e9 variada e, inclusive nos momentos baixos, d\u00e1 para o entretenimento e as profundidades. Tem espectro popular e alta cultura. Inclusive tem postura, que \u00e9 algo que todo sistema cultural precisa para #insultar a sim mesmo. Tem de todo menos a convic\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Tem de todo menos a seguran\u00e7a de que quando oferece algo vai haver gente mirando. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 casualidade.<\/p><p>Nos \u00faltimos quarenta anos a preocupa\u00e7\u00e3o fundamental da cultura foi ser homolog\u00e1vel. Homolog\u00e1vel com a contorna. Esta foi uma angueira n\u00e3o muito reflexiva e algo complexada: talvez teria sido mais operativo ver quais eram as singularidades e fazer d\u00ea-las identidade que tentar demonstrar que somos coma o resto. A preocupa\u00e7\u00e3o, em parte, foi herdada. Mas chegados \u00e0 cultura auton\u00f3mica essa necessidade homologadora transformou na estimula\u00e7\u00e3o da oferta pela via da profissionaliza\u00e7\u00e3o dos processos anteriores, maioritariamente voluntaristas, e a posta em marcha de sectores culturais que reafirmasse a exist\u00eancia de umas profiss\u00f5es capazes de perceber com a sociedade e de ter uma interlocu\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m aspirava a ser econ\u00f3mica.<\/p><p>A estrat\u00e9gia pode ser considerada equivocada, mas desde o ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o de sectores profissionais teve sucesso. Com olhadela simplista, teve mais sucesso no teatro e no audiovisual que na literatura. N\u00e3o foi muito exitosa na arte contempor\u00e2nea. E teve o sucesso esperavel na m\u00fasica porque sucede com frequ\u00eancia que em pa\u00edses com problemas de autoestima a m\u00fasica \u00e9 a \u00fanica que assume a identidade sem manchar. Teve mais sucesso na m\u00fasica que no jornalismo.<\/p><p>A estrat\u00e9gia p\u00f4de ser a inversa: estimular o uso da cultura at\u00e9 que esse uso gerasse a posta em marcha dos sectores. Mas soava a neoliberal e a press\u00e3o dos profissionais numa sociedade sempre \u00e9 mais constante que a do p\u00fablico. Essa press\u00e3o dos sectores que queriam profissionalizar-se empurrou o avan\u00e7o da cultura galega. Com perspetiva geral esse avan\u00e7o desacelerou em canto teria que ter come\u00e7ado a segunda fase: encontrar um p\u00fablico para toda essa oferta.<br><br>Agora, como ent\u00e3o, a cultura galega tem que encontrar um p\u00fablico. Este labor ficou historicamente pendente. Cada sector tentou amanhar as suas pr\u00f3prias contas e a ideia de uma cultura que se assumira a sim mesma como um sector completo passou a ser um horizonte sem detalhes, uma realidade difusa. Nem sequer reivindic\u00e1vel.<\/p><p>Culturgal demonstra cada ano o #mesmo que demonstram as livrarias, o #mesmo que as agendas culturais, o #mesmo que os p\u00e1tios de butacas: que s\u00f3 arredor da cultura destinada ao p\u00fablico familiar\/infantil parece haver atra\u00e7\u00e3o no p\u00fablico para a oferece galega. E pode ser uma circunst\u00e2ncia com futuro de n\u00e3o ser porque em canto chega a adolesc\u00eancia o uso cultural parece marchar noutra dire\u00e7\u00e3o. Sem regresso na maior parte dos casos.<\/p><p>Desde h\u00e1 anos o Culturgal tem moqueta. Mas n\u00e3o \u00e9 por presumir. \u00c9 para ter os p\u00e9s quentes. Por muito que digam os rom\u00e2nticos e os seus erros vitais: uma cultura, como um pa\u00eds, deve ter os p\u00e9s quentes e a cabe\u00e7a fria. A cabe\u00e7a fria assinala que a cultura galega n\u00e3o livrou como devia o labor de encontrar p\u00fablicos. A ideia que os p\u00fablicos aparecem \u00e9 ing\u00e9nua e, talvez, est\u00e1 patrocinada por sistemas que n\u00e3o t\u00eam problemas de p\u00fablicos. O p\u00fablico para a cultura galega \u00e9 um assunto que segue pendente. Mas \u00e9 o assunto. N\u00e3o pode haver cultura sem p\u00fablicos. E uma cultura n\u00e3o se pode buscar a sim mesma sem buscar ao seu p\u00fablico.<\/p><p>Num sentido geralista, a cultura galega avan\u00e7ou sector por sector; mas esqueceu os argumentos que h\u00e1 em comum entre eles. Esqueceu de apresentar-se a sim mesma como uma cultura completa, mesmo como o que \u00e9: uma cultura complexa, contradit\u00f3ria e com essa tens\u00e3o constante entre ser reveladora ou ser representativa. Essa tens\u00e3o constante e imprescind\u00edvel entre ser uma cultura de autor ou uma cultura de p\u00fablicos. Com as zonas de sombra, com os espa\u00e7os de cruze. <\/p><p>Os sectores culturais assumiram a batalha di\u00e1ria da sobreviv\u00eancia, da depend\u00eancia institucional, de mover numa cultura \u00e0 que se limitou o seu campo operativo para convert\u00ea-la \u2014vou insistir nesta ideia\u2014 numa reserva indiana. Para converter numa sec\u00e7\u00e3o de outra coisa superior que n\u00e3o precisava ser nomeada, s\u00f3 fazia falta situ\u00e1-la como superior. Na batalha di\u00e1ria perder algo da estrat\u00e9gia de chamar po\u00ea-lo p\u00fablico e tamb\u00e9m a imprescind\u00edvel teoria de perceber toda a cultura como uma rede na que as vibra\u00e7\u00f5es de uns fios devem produzir movimento nos outros. A ideia de conjunto ficou a uma formula\u00e7\u00e3o case pol\u00edtica e pouco pr\u00e1tica. Perder a retroalimenta\u00e7\u00e3o de uns sectores com outros. Perder a ideia de pertencer a uma cultura mais que a uma profiss\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas primeiras edi\u00e7\u00f5es do Culturgal n\u00e3o havia moqueta. Baixo os p\u00e9s dos visitantes estava o cimento do pa\u00e7o e esta perspetiva de horizontalidade e falta de postureo, essa perspetiva t\u00e3o galega de que o cemento \u00e9 o arranjo de tantos problemas do pa\u00eds, tinha consequ\u00eancias inesperadas: rebaixava a temperatura do espa\u00e7o. O cimento \u00e9 assim: tira a \u00e1gua dos caminhos, mas n\u00e3o \u00e9 muito confort\u00e1vel nos interiores.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":309635,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[195],"tags":[],"class_list":["post-309722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatiga-ocular-pt-pt"],"acf":[],"post_template":"reportaxe","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"O que passava por riba do cemento cultural daqueles anos era, ao mesmo tempo, a conclus\u00e3o de que o voluntarismo n\u00e3o podia assumir a catividade e a identidade de toda uma cultura, e a constata\u00e7\u00e3o de fundo de que longe do suporte p\u00fablico n\u00e3o havia case movimento para que um sector cultural ganhasse capacidade operativa,...","reading_data":{"word_count":"931","reading_seconds":"223","reading_time":{"minutes":3,"hours":0,"seconds":43},"reading_string":"3'43''","reading_human":"4 minutos"},"announcement":{"finishdate":"","finishdate_text":""},"opinion":{"subject":"","subject_info":[]},"event_info":{"startdate":"","starttime":"","enddate":"","endtime":"","entertainer":null},"interview":{"interviewed":""},"phototext":{"text_author":"","text_photo":""},"video":{"video_source":""},"promotion":{"action":"default","action_data":""},"categories_list":[{"name":"Fadiga Ocular","id":195,"slug":"fatiga-ocular-pt-pt","parent":0,"template":"default"}],"visible_author":"Camilo Franco","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/posts\/309722"}],"collection":[{"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/users\/51"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/comments?post=309722"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/posts\/309722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":309881,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/posts\/309722\/revisions\/309881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/media\/309635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/media?parent=309722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/categories?post=309722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/api\/wp\/v2\/tags?post=309722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}