{"id":352540,"date":"2023-02-27T20:44:46","date_gmt":"2023-02-27T19:44:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2023\/02\/27\/cidades-352540\/"},"modified":"2023-02-28T10:46:18","modified_gmt":"2023-02-28T09:46:18","slug":"cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2023\/02\/27\/cidades-352540\/","title":{"rendered":"Cidade"},"content":{"rendered":"<p>A cidade n\u00e3o \u00e9 um destino, \u00e9 uma urg\u00eancia. \u00c9 feita de um milh\u00e3o de elementos em combina\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel. Um jogo de \u00edmanes para crian\u00e7as: numa posi\u00e7\u00e3o atrai; noutra repele. Os elementos s\u00e3o por vezes raptados pelas decora\u00e7\u00f5es do centro ou abatidos contra a periferia do lugar e da hist\u00f3ria. As cidades n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os, nem arquitetura, nem demografia, nem mesmo a interpreta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da vida dos seus habitantes. As cidades s\u00e3o a pr\u00f3pria tens\u00e3o de tudo o que nos explica, de contradi\u00e7\u00f5es e interesses. A soma e a subtra\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. A cidade \u00e9 o tra\u00e7o das hist\u00f3rias e quase todas elas acabam nas pe\u00e7as de Miguel Mosquera, recuperadas, reconstitu\u00eddas, reorganizadas, agitadas para fazer um retrato da cidade a partir dos argumentos menos presum\u00edveis. Um lugar sem montras de lojas. Tudo tem um duplo significado, e Miguel Mosquera rumina pacientemente e ironicamente atrav\u00e9s das combina\u00e7\u00f5es multiplicadas. Ele realoca a cabe\u00e7a e a cauda da moeda, o verso e o verso das notas porque onde h\u00e1 um horizonte, h\u00e1 uma paisagem pol\u00edtica. No verso est\u00e3o representadas as pe\u00e7as do quotidiano que usam uma finura extraordin\u00e1ria sob a urna iluminada. <br><br>No verso o cr\u00e9dulo pode ter a certeza de que n\u00e3o h\u00e1 arte com mal\u00edcia, mas sim ideias desajeitadas e cada mastro segura velas diferentes e cada vela resiste a ventos contr\u00e1rios. H\u00e1 as cidades vistas a partir dos res\u00edduos convertidos em mat\u00e9ria construtiva, transformando o acaso numa causa de reciclagem de cada paisagem: no final, estamos numa era de reinterpreta\u00e7\u00f5es. No anverso das obras de Miguel Mosquera, podemos ver o resultado de cada sinal dentro do quadro e de cada pintura dentro do mundo. Os sinais s\u00e3o t\u00e3o variados que o espectador pode pensar que a floresta de mensagens cruzadas n\u00e3o permite que as \u00e1rvores de papel sejam vistas. O artista n\u00e3o ignora as circunst\u00e2ncias e por isso usa cada verso para provar a const\u00e2ncia da sua est\u00e9tica: os objetos n\u00e3o s\u00e3o for\u00e7ados a encontrar o seu lugar, cada lugar \u00e9 o lugar. Ele est\u00e1 a reinventar o of\u00edcio das met\u00e1foras, mas desta vez eles n\u00e3o mentem.<br><br>Por outro lado, as coisas n\u00e3o s\u00e3o como parecem. H\u00e1-nos com as nossas mentiras sob a forma de desculpas, hist\u00f3rias, discursos, fugas e toda a narrativa que gera a nega\u00e7\u00e3o da realidade. Fazemos a cidade construir-se a si pr\u00f3pria a partir de sinais e obrigamos Miguel Mosquera a revelar o c\u00f3digo. Para deslocar as grandes palavras em favor dos pequenos gestos. E para recontar a hist\u00f3ria. O reverso \u00e9 a revis\u00e3o do que foi dito, aplicando a lucidez no procedimento: somos obrigados a repensar tudo a partir de uma posi\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a. A partir da ironia, porque podemos respeitar a tradi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a conven\u00e7\u00e3o. Somos obrigados a reconsiderar n\u00e3o porque seja o nosso esp\u00edrito rebelde, mas porque \u00e9 o esp\u00edrito mentiroso dos tempos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Mosquera recapitula o Ourense no Ourense. Entre 1980 e 2022, n\u00fameros pares para uma situa\u00e7\u00e3o \u00edmpar. Abre a galeria Dodo Dad\u00e1 com o duplo significado de arquivo e revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":352450,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[195],"tags":[],"class_list":["post-352540","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatiga-ocular-pt-pt"],"acf":[],"post_template":"reportaxe","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"A cidade n\u00e3o \u00e9 um destino, \u00e9 uma urg\u00eancia. \u00c9 feita de um milh\u00e3o de elementos em combina\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel. Um jogo de \u00edmanes para crian\u00e7as: numa posi\u00e7\u00e3o atrai; noutra repele. Os elementos s\u00e3o por vezes raptados pelas decora\u00e7\u00f5es do centro ou abatidos contra a periferia do lugar e da hist\u00f3ria. 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