{"id":368590,"date":"2023-04-14T16:17:40","date_gmt":"2023-04-14T14:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2023\/04\/14\/todos-os-lumes-368590\/"},"modified":"2023-04-14T19:06:48","modified_gmt":"2023-04-14T17:06:48","slug":"todos-os-lumes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2023\/04\/14\/todos-os-lumes-368590\/","title":{"rendered":"Todos os inc\u00eandios"},"content":{"rendered":"<p>Por vezes queremos ver o fogo como aquela criatura m\u00edtica que nos relaciona com a indefensabilidade original da esp\u00e9cie, mas a verdade \u00e9 que v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es foram constru\u00eddas sobre fogo. Esse fogo \u00e9 o grande elemento transformador da hist\u00f3ria e que um lar \u00e9 um fogo. Talvez tamb\u00e9m por causa disso, devido \u00e0 sua depend\u00eancia do perigo. \u00c9 essencial, mas \u00e9 mort\u00edfero. O fogo veio connosco. Somos n\u00f3s.<\/p><p>Depois h\u00e1 os fogos das montanhas e queremos sofrer a maldi\u00e7\u00e3o b\u00edblica de n\u00e3o sermos capazes de distinguir um do outro. De n\u00e3o querer ir al\u00e9m dessa met\u00e1fora de compreender todos os fogos como o mesmo fogo. Como se todos eles fossem alimentados pelo mesmo pavio invis\u00edvel que o faz aparecer aqui e ali. Mas em todo o lado parece m\u00edtico, como uma praga, como um combate imposs\u00edvel que a humanidade tem vindo a combater desde o in\u00edcio dos tempos. Desde antes de existir a humanidade. Antes da civiliza\u00e7\u00e3o. Antes de existir o capitalismo.<\/p><p>Damos a mesma import\u00e2ncia ao fogo azul das caldeiras e ao fogo dourado das chamin\u00e9s. Como se a p\u00f3lvora da pirotecnia fosse a mesma que a p\u00f3lvora das balas. \u00c9 verdade: confundimos os sintomas com as causas e estamos presos como aqueles que n\u00e3o querem olhar para baixo para ver o fundo do po\u00e7o. Porque o po\u00e7o somos n\u00f3s, e no fundo h\u00e1 sempre os restos de um inc\u00eandio que acendemos e a intui\u00e7\u00e3o cultural de que sem drama n\u00e3o h\u00e1 progresso. Sem sangue, os direitos n\u00e3o podem ser defendidos. Ser racional \u00e9 desaprovado porque n\u00e3o se move. Mas o fogo, sim. O fogo move todas as partes adormecidas e come\u00e7amos a correr na direc\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 do fumo, que nem sempre \u00e9 a direc\u00e7\u00e3o certa porque nem sempre \u00e9 o oposto do fogo.<\/p><p>Precisamos do fogo para manter a civiliza\u00e7\u00e3o em movimento. \u00c9 preciso que o acendamos. Na estranha complementaridade, pomos combust\u00edvel e lamentamos ao mesmo tempo, Jekyll e Hide na dupla face da civiliza\u00e7\u00e3o, no c\u00edrculo vicioso de todos os relatos.<\/p><p>Depois h\u00e1 as montanhas e preferimos os arrependimentos aos cuidados. O mesmo \u00e9 uma atitude permanente que n\u00e3o tem qualquer disfarce quando se olha para a pele negra deitada no horizonte. H\u00e1 as montanhas, que \u00e9 certamente uma defini\u00e7\u00e3o imprecisa porque alude em parte ao incivilizado, \u00e0 selva, \u00e0quele lugar de arbustos densos e em fuga em tempos de guerra. A montanha, na Galiza, tem aquele mito n\u00e3o cultivado, aquele espa\u00e7o a ser cultivado onde ainda existem hist\u00f3rias de lobos. O lugar sem limites onde se pode perder. Aquele espa\u00e7o que est\u00e1 para al\u00e9m do lugar sem cobertura. A fronteira final. Mas tudo isto \u00e9 literatura defensiva. Nada disto tem correspond\u00eancia com a realidade, mesmo que qualquer pessoa possa vaguear num arbusto durante horas. O arbusto, como quase tudo o resto, tem as suas pr\u00f3prias regras. Se o deixarmos, ele cresce. Se o deixarmos, eles p\u00f5em em movimento a sua pr\u00f3pria sociedade animal e vegetal, na qual pode haver uma parte n\u00e3o racional, mas quase nunca \u00e9 por acaso.<\/p><p>O mato arde e nesse fogo ardem muitas contradi\u00e7\u00f5es da sociedade ocidental. Aquela que tenta esquecer o seu passado rural, aquela que aplica crit\u00e9rios fora do contexto, que exagera nas desculpas em vez de agir com rem\u00e9dios. O mesmo do qual pendem um milh\u00e3o de raz\u00f5es que quase nunca coincidem com as necessidades.\u00a0\u00a0S\u00e3o raz\u00f5es que t\u00eam um sentido crist\u00e3o do discurso: para aliviar a culpa, para a orientar noutra direc\u00e7\u00e3o. Para se livrar dela com a pretensa import\u00e2ncia do arrependimento. Toda a ret\u00f3rica destinada a fazer o retrato em cinzas que continua a ser o ideal ap\u00f3s um inc\u00eandio.<br><\/p><figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DBADF772-5902-4F01-9386-808AF5510CC0.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-368493\" width=\"930\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DBADF772-5902-4F01-9386-808AF5510CC0.jpeg 1240w, https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DBADF772-5902-4F01-9386-808AF5510CC0-300x186.jpeg 300w, https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DBADF772-5902-4F01-9386-808AF5510CC0-1024x634.jpeg 1024w, https:\/\/pisofranco.gal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DBADF772-5902-4F01-9386-808AF5510CC0-768x476.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 930px) 100vw, 930px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O projeto de Incendio de Miguel Mosquera ficar\u00e1 na Funda\u00e7\u00e3o Laxeiro de Vigo at\u00e9 julho de 2023<\/figcaption><\/figure><p><br>O retrato de Miguel Mosquera \u00e9 feito atrav\u00e9s da revis\u00e3o racional dos elementos que rodeiam o fogo. Esta nuan\u00e7a \u00e9 importante. Como nos melhores dramas escritos, \u00e9 importante rever o que acontece ap\u00f3s o inc\u00eandio. Mas \u00e9 fundamental ver o que aconteceu antes. Quando h\u00e1 fogo, encontramos as manchetes, as medidas, as marcas, os danos. O fogo \u00e9 como a guerra. A altera\u00e7\u00e3o do presente que n\u00e3o nos deixa pensar. Miguel Mosquera faz um novo mapa destas rela\u00e7\u00f5es entre o antes e o depois. Num sentido racional, o artista &#8220;esquece&#8221; o fogo para nos fazer ver o resto das coisas. Entre esse descanso est\u00e1 o territ\u00f3rio e a forma como nos relacionamos com ele. H\u00e1 as pessoas e a forma como habitam o territ\u00f3rio. H\u00e1, com especial aten\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre n\u00f3s como sociedade e o arbusto como espa\u00e7o. Essa rela\u00e7\u00e3o e as palavras que ardem no fogo e as que permanecem como cinzas. Palavras de um discurso que, no passado, parece ter sido incendiado pelo esp\u00edrito correctivo. S\u00e3o as palavras que se decomp\u00f5em assim que chega Outubro ou as primeiras chuvas, o que aparecer primeiro no horizonte. S\u00e3o as palavras da ind\u00fastria do fogo e o jogo da informa\u00e7\u00e3o ou desinforma\u00e7\u00e3o sobre o fogo. S\u00e3o as palavras dos espectadores que, ao entrarem na sec\u00e7\u00e3o de desporto das not\u00edcias, esquecem o sentido estrat\u00e9gico da vida planet\u00e1ria. Miguel Mosquera n\u00e3o explica porque arde, Mosquera explica o significado do que arde.<\/p><p>Existe uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre n\u00f3s e os fogos. Peri\u00f3dica. Vingan\u00e7a. Nas tardes soalheiras do Inverno, poder\u00edamos sair para o territ\u00f3rio e talvez ver as cicatrizes nas extens\u00f5es ainda negras da montanha e no verde que aparece timidamente, o que n\u00e3o sei se podemos descrever como apertado. Poder\u00edamos sair para o mato em qualquer uma de mais mil nascentes e testemunhar a teimosia da natureza regeneradora e ser optimistas e despreocupados, ou ser realistas e calcular que sem n\u00f3s nada disto teria acontecido.Quando chega o calor que quer ser Ver\u00e3o, podemos ficar com medo de n\u00e3o ter feito os nossos trabalhos de casa e esperar que chova ou qualquer outra esperan\u00e7a desmobilizadora. Podemos olhar para a paisagem e dar-lhe todas as explica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que nos possam surgir em termos de fantasia ou escapismo. O que n\u00e3o vamos achar t\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 ver as causas do inc\u00eandio. N\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o f\u00e1cil ver as \u00faltimas consequ\u00eancias de cada uma destas cicatrizes. Porque as consequ\u00eancias podem ser vistas aqui.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio \u00e9 fogo. A rela\u00e7\u00e3o antiga, primitiva e urgente, como os animais que t\u00eam muito medo um do outro, apesar de precisarem um do outro. No in\u00edcio h\u00e1 sempre a intensa sensa\u00e7\u00e3o de perigo de qualquer mam\u00edfero assustado pelas lapas que agitam a mat\u00e9ria nervosa at\u00e9 ao \u00faltimo dos c\u00e9rebros. Como o coelho em frente da doninha. Como se o fogo estivesse diante de n\u00f3s. Mas este \u00e9 apenas o primeiro dos erros.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":368489,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[195],"tags":[],"class_list":["post-368590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatiga-ocular-pt-pt"],"acf":[],"post_template":"reportaxe","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"Por vezes queremos ver o fogo como aquela criatura m\u00edtica que nos relaciona com a indefensabilidade original da esp\u00e9cie, mas a verdade \u00e9 que v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es foram constru\u00eddas sobre fogo. Esse fogo \u00e9 o grande elemento transformador da hist\u00f3ria e que um lar \u00e9 um fogo. 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