{"id":378571,"date":"2023-05-26T19:33:50","date_gmt":"2023-05-26T17:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2023\/05\/26\/es-378571\/"},"modified":"2023-05-27T10:45:59","modified_gmt":"2023-05-27T08:45:59","slug":"es","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2023\/05\/26\/es-378571\/","title":{"rendered":"Escrever requer prepara\u00e7\u00e3o e treino"},"content":{"rendered":"<p>Haruki Murakaki encheu ontem \u00e0 noite o Casino de Santiago para apresentar <em>De que estou a falar cando falo de correr<\/em>, publicado pela Galaxia. Foi o seu segundo evento do dia, j\u00e1 que o primeiro, uma hora antes, teve lugar no Instituto Rosal\u00eda de Castro, onde o escritor japon\u00eas teve o seu primeiro contacto com os alunos que lhe atribu\u00edram o pr\u00e9mio San Clemente pelo seu romance After Dark, publicado pela Tusquets.<\/p><p><strong>-O livro que a Galaxia acaba de publicar, &#8220;De que estou a falar cando falo de correr&#8221;, insiste na ideia de que escrever romances \u00e9 como correr uma maratona. Uma coisa e outra s\u00e3o t\u00e3o paralelas?<\/strong><br>-Escrever um romance \u00e9 algo que requer prepara\u00e7\u00e3o e treino. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo sem trabalho pr\u00e9vio. Nesse sentido, diria que s\u00e3o actividades paralelas que necessitam de uma prepara\u00e7\u00e3o semelhante: requerem concentra\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o cont\u00ednuo. H\u00e1 dois anos que me levanto \u00e0s quatro da manh\u00e3 e escrevo durante cinco horas seguidas, sete dias por semana e quatro semanas por m\u00eas. Isto n\u00e3o pode ser feito espontaneamente, nem correr uma maratona ou uma s\u00e9rie de quil\u00f3metros por dia. Um romance requer prepara\u00e7\u00e3o, treino e concentra\u00e7\u00e3o, porque sem concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escrever. Por outro lado, na pr\u00e1tica, comecei a escrever romances quase ao mesmo tempo que comecei a correr a maratona. Para mim, andam de m\u00e3os dadas.<\/p><p><strong>Se um romancista \u00e9 um corredor de maratona, um contista seria como um corredor de cem metros?<\/strong><br>-N\u00e3o no meu caso. Os livros de contos s\u00e3o escritos mais rapidamente, mas mantenho mais ou menos os mesmos h\u00e1bitos num caso ou noutro. Nesse sentido, a rela\u00e7\u00e3o com a literatura n\u00e3o muda, seja qual for o g\u00e9nero.<\/p><p><strong>-Neste mesmo livro, explica que no comportamento humano o f\u00edsico \u00e9 mais importante que o intelectual, que \u00e9 necess\u00e1rio adaptar o corpo a qualquer actividade.<\/strong><br>-N\u00e3o acredito muito nessa ideia. Como escritor, o que fa\u00e7o \u00e9 ir mais fundo em mim pr\u00f3prio. De certa forma, sirvo-me de mim pr\u00f3prio porque n\u00e3o tenho muitas outras op\u00e7\u00f5es se quiser falar de coisas que conhe\u00e7o. Aprofundo-me a mim pr\u00f3prio e, a partir da\u00ed, tiro conclus\u00f5es que se transformam nas hist\u00f3rias que conto. No caso deste livro, h\u00e1 conclus\u00f5es mais directas porque falo de coisas como a corrida, que \u00e9 uma actividade que pratico h\u00e1 muitos anos, que me deu bons resultados em mais do que um aspecto e com a qual aprendi a conhecer melhor ou a compreender melhor algumas coisas.<\/p><p><strong>-Mas acha que o aspecto emocional \u00e9 mais importante do que o aspecto intelectual?<\/strong><br>-Acho que ambos s\u00e3o importantes. Depende da pessoa e acho que um e outro andam juntos e interagem de tal forma que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil separar um do outro. Para mim, e no que diz respeito \u00e0 literatura, s\u00e3o at\u00e9 circunst\u00e2ncias porque \u00e9 muito dif\u00edcil gerir apenas uma das duas. Acho que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que a vida e a literatura sejam poss\u00edveis se uma delas faltar.<\/p><p><strong>-No entanto, diz no livro que, enquanto corre, n\u00e3o pensa em nada de concreto.<\/strong><br>-Digo que n\u00e3o penso em nada em particular, que se me perguntarem n\u00e3o sei dizer exactamente em que penso quando corro. Mas correr tem um efeito que ajuda a clarificar aquilo em que pensamos. \u00c9 uma forma de habituar o corpo \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para escrever.<\/p><p><strong>-Acha que as pessoas na Europa ainda l\u00eaem literatura japonesa como se fosse algo ex\u00f3tico?<\/strong><br>-N\u00e3o creio que se possa falar de uma \u00fanica literatura japonesa. H\u00e1 muitos tipos de literatura japonesa. Alguns deles podem ser ex\u00f3ticos para os leitores europeus. H\u00e1 literatura que \u00e9 mais local e literatura que tem um enredo ou um car\u00e1cter mais internacional.<\/p><div class=\"card card-cutting card-cutting--card \">\n\t\t\t<div class=\"card-cutting__label\">+ Murakami<\/div>\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"card-body card-cutting__body\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<h3 class=\"card-title card-cutting__title\">En Toquio tamb\u00e9m h\u00e1 luras e polvos<\/h3>\n\t\t\t\t<div class=\"card-cutting__content\">\n\t\t\t\t<p>&#8220;T\u00f3quio \u00e9 um lugar muito diferente deste, embora l\u00e1 tamb\u00e9m haja lulas e polvos&#8221;. Foi assim que Haruki Murakami explicou os seus sentimentos ao chegar a Compostela. &#8220;Em T\u00f3quio, al\u00e9m disso, h\u00e1 muito mais barulho&#8221;. O escritor explicou no Casino que a sua hist\u00f3ria era simples: &#8220;Eu tinha um clube de jazz em T\u00f3quio e era feliz porque podia ouvir m\u00fasica todos os dias e a todas as horas&#8221;. Quando o escritor fez 33 anos, houve uma mudan\u00e7a: &#8220;Nunca tinha escrito antes, mas apeteceu-me e fui publicado. Foi assim t\u00e3o f\u00e1cil. Com a mesma simplicidade, come\u00e7ou a correr na maratona: &#8220;\u00c9 um desporto que se tem de enfrentar sozinho, eu gosto de estar sozinho e por isso comecei a correr, naturalmente, da mesma forma que comecei a escrever, embora n\u00e3o saiba se tenho jeito para isso&#8221;. Para o autor de After Dark, estes s\u00e3o dias calmos porque acaba de entregar um novo livro \u00e0 sua editora japonesa. N\u00e3o explica o seu conte\u00fado, mas garante que &#8220;\u00e9 um trabalho longo, escrito nos \u00faltimos dois anos&#8221;. Ser\u00e1 publicado no Jap\u00e3o em Maio e, segundo o escritor, ainda n\u00e3o h\u00e1 data para a tradu\u00e7\u00e3o para galego, &#8220;porque \u00e9 uma obra muito longa e n\u00e3o sei quanto tempo vai demorar a traduzi-la&#8221;. O escritor disse estar feliz por ter terminado o seu trabalho de dois anos e explicou que, caso contr\u00e1rio, &#8220;n\u00e3o poderia estar aqui, perderia a minha concentra\u00e7\u00e3o exacta, mas agora [o trabalho] est\u00e1 terminado e entregue&#8221;, e Murakami pode desfrutar &#8220;de estar em Santiago&#8221;. O escritor japon\u00eas, juntamente com Luis Landero, Molina Foix e Anxos Sumai, participar\u00e1 ao longo do dia nas actividades que a Rosal\u00eda de Castro est\u00e1 a desenvolver em torno de San Clemente.<\/p><p>Murakami explicou no Casino que tinha acabado de chegar de T\u00f3quio, onde lhe tinha acontecido uma hist\u00f3ria curiosa quando viajava de metro. &#8220;No fundo da carruagem estava uma rapariga bonita que olhou para mim durante algum tempo, depois veio ter comigo e perguntou-me se eu era o Murakami, eu disse que sim enquanto pensava: h\u00e1 dias bons. Depois disse-me que o livro de que mais tinha gostado era o meu primeiro livro e que, desde ent\u00e3o, tinha vindo a piorar. Ent\u00e3o pensei: h\u00e1 dias maus&#8221;, afirmou. O escritor avisou o p\u00fablico que o seu pr\u00f3ximo livro &#8220;vai ser o melhor&#8221; de todos os que j\u00e1 escreveu. Talvez haja mais dias bons.<\/p><p><\/p>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fora do jazz e dos Beatles, h\u00e1 poucas coincid\u00eancias entre Murakami e o autor da entrevista. Murakami passou por Santiago em 2009 e foi nessa conversa que, se bem me lembro, n\u00e3o chegamos a sentar. Tamb\u00e9m n\u00e3o sa\u00edmos a correr.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":378255,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-378571","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista-pt"],"acf":[],"post_template":"entrevista","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"Haruki Murakaki encheu ontem \u00e0 noite o Casino de Santiago para apresentar De que estou a falar cando falo de correr, publicado pela Galaxia. 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