{"id":457206,"date":"2024-09-14T13:47:45","date_gmt":"2024-09-14T11:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2024\/09\/13\/resiste-mama-457206\/"},"modified":"2024-09-14T12:16:21","modified_gmt":"2024-09-14T10:16:21","slug":"resiste-mama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2024\/09\/14\/resiste-mama-457206\/","title":{"rendered":"Resistir M\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio que o verbo \u00e9: Resistir. Toda a vida. 95. Resistir contra os tempos e as circunst\u00e2ncias. Contra as guerras reais e as falsas pazes. Com todos os argumentos que os melodramas desvalorizam: nascer na emigra\u00e7\u00e3o, regressar em crian\u00e7a a um lugar que tamb\u00e9m n\u00e3o era o seu. Um col\u00e9gio interno religioso, uma madrasta e uma meia-irm\u00e3. Crescer no canto familiar das coisas que s\u00e3o emprestadas. A juventude vem com tantas regras e t\u00e3o pouca roupa. Com ela vem aquela curiosa forma de sobreviv\u00eancia: algumas gargalhadas no meio da resigna\u00e7\u00e3o de n\u00e3o querer ser considerado o primeiro em nada. Acomodar-se numa forma de invisibilidade que leva as pessoas para o fundo do palco vital. Resistir a esta forma de transpar\u00eancia como se a vida fosse a simplifica\u00e7\u00e3o de um romance sentimental. Mas a esquina tamb\u00e9m se encheu e, para abrir espa\u00e7o naquela casa que n\u00e3o era a sua, apareceu um casal. Um casamento com um marido que tinha como lema uma frase repetida para todo o sempre: o homem que se engana a casar continua a enganar-se para todo o sempre. Depois das palavras v\u00eam os actos, e os actos n\u00e3o deixam palavras. Resistir at\u00e9 que a sobreviv\u00eancia seja a \u00fanica forma reconhec\u00edvel de respirar. Porque o casamento era uma imensa sombra de cardeais, um contrato indefinido de viol\u00eancia em que o milagroso encontrava momentos de descanso. Chegaram os filhos e, em vez de p\u00e3o, trouxeram h\u00f3stias debaixo dos bra\u00e7os. A resist\u00eancia prolongou-se porque n\u00e3o havia outra estrat\u00e9gia poss\u00edvel: uma vida golpe a golpe sem nunca saber quem proteger primeiro. Um verme sem fim de medo, dissimula\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia, sacrif\u00edcio, mentiras piedosas para si pr\u00f3prio, sabendo que para mentir melhor \u00e9 preciso dizer o menos poss\u00edvel. Duradouro, duradouro, duradouro. Todos os dias, um milh\u00e3o de frases subordinadas, em que cada quinta palavra \u00e9 um insulto. Respirar quando se vai para o trabalho. Recuperar o f\u00f4lego quando as chaves tocam \u00e0 porta. Fritar um biscoito todos os dias e todas as outras tarefas dom\u00e9sticas, transformando a repeti\u00e7\u00e3o dos trabalhos de casa numa forma de ref\u00fagio. Resistir a trinta anos de um casamento mort\u00edfero, a tr\u00eas filhos teimosos, a um aborto, \u00e0s qualifica\u00e7\u00f5es morais das cidades pequenas, aos campos minados, \u00e0s culpas pr\u00f3prias, \u00e0 justi\u00e7a imposs\u00edvel. Sobreviver a uma filha suicida e ao cerco permanente da culpa que nos \u00e9 empurrada. Resistir sem saber o que deveria ter sido. Resistir sem ter clareza dos pr\u00f3prios limites, sem horizonte, sem saber porqu\u00ea. Como um \u00fanico mandamento. E, finalmente, quando tudo passa, mas tudo fica e a vida deixou de pressionar, sem poder explicar o antes ou o depois e inventando uma outra forma de resist\u00eancia: n\u00e3o pensar no perdido. N\u00e3o pensar no vivido. E resistir ali: no que resta.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio que o verbo \u00e9: Resistir. Toda a vida. 95. Resistir contra os tempos e as circunst\u00e2ncias. Contra as guerras reais e as falsas pazes. 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