{"id":478089,"date":"2025-01-19T15:20:50","date_gmt":"2025-01-19T14:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pisofranco.gal\/artigos\/2025\/01\/19\/tenome-por-un-apaixonado-da-vida-478089\/"},"modified":"2025-01-19T20:00:58","modified_gmt":"2025-01-19T19:00:58","slug":"tenome-por-un-apaixonado-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pisofranco.gal\/pt-pt\/artigos\/2025\/01\/19\/tenome-por-un-apaixonado-da-vida-478089\/","title":{"rendered":"Considero-me un apaixoado pela vida"},"content":{"rendered":"<p>Para Bernardino Gra\u00f1a n\u00e3o h\u00e1 tempo para o t\u00e9dio. Quando \u00e9 altura de escrever, ele escreve. Quando \u00e9 altura de descer para passear entre as \u00e1rvores, ele passeia. \u00c9 uma atitude vital, garante-nos, que tem a ver com o desejo de fazer coisas, com a paix\u00e3o e com uma forma de estar.<br><br><strong>-H\u00e1 quanto tempo \u00e9 que se considera escritor?<\/strong><br>-Olha, quando eu brincava a escrever. Parafraseava versos e algumas hist\u00f3rias. Escrevo h\u00e1 uns cinquenta anos e acho que comecei a levar a s\u00e9rio quando come\u00e7\u00e1mos a Brais Pinto como editora. Ferr\u00edn levava a literatura muito a s\u00e9rio, muito mais do que eu. Quando come\u00e7\u00e1mos a editora, disse-me que, j\u00e1 que escreves sempre, te dedicasse a isso e deixasse de fazer publicidade. Est\u00e1vamos em 58, e comecei a escrever o meu primeiro livro. Antes disso, tinha escrito uns contos e umas coisas estranhas, em jornais e revistas<br><br><strong>-Mas quando come\u00e7ou, n\u00e3o parou mais. Poesia, narrativa, teatro e o que fica no meio de todas elas. Em perspetiva, em qual delas se sente melhor?<\/strong><br>-Ultimamente sinto-me muito \u00e0 vontade com a narrativa e at\u00e9 com o teatro. Mas se quer que lhe diga a verdade, n\u00e3o percebo muito bem as classifica\u00e7\u00f5es editoriais ou os g\u00e9neros. Na verdade, sempre pensei que se deve escrever o que se sente e, mais ou menos, \u00e9 isso que tento fazer, seja qual for o g\u00e9nero. Cada vez me surpreendo mais com as classifica\u00e7\u00f5es e cada vez me preocupo menos com elas.<\/p><p><strong>-A narrativa tem-no mantido bastante ocupado ultimamente.<\/strong><br>-Tenciono fazer uma trilogia com o Protoevanxeo (romance vencedor do Eje Atl\u00e1ntico), contando a vida de Xes\u00fas em crian\u00e7a, sem entrar na vida de Xes\u00fas em adulto.<\/p><p><strong>-A religi\u00e3o \u00e9 um argumento que gravita sobre a sua obra.<\/strong><br>-Bem, o meu pai estava a um metro de ser padre. S\u00f3 lhe faltava vestir a batina. Estudou para ser padre e n\u00e3o o fez por amor, pelo amor da minha m\u00e3e. Ele desistiu de tudo para me ter. Foi um ato de amor e uma das coisas que nunca compreendi na Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 que ela pode sobreviver sem acreditar nesse amor.<\/p><p><strong>-Eles continuam a acreditar, mas dissimulam&#8230;<\/strong><br>-Talvez seja dissimula\u00e7\u00e3o. Mas se a Igreja quiser sobreviver no futuro e n\u00e3o se afastar do povo, ter\u00e1 de retirar da sua doutrina esta hist\u00f3ria do celibato, que \u00e9 t\u00e3o desumana.<\/p><p><strong>-Fala do amor como um motor vital, tem um peso t\u00e3o grande na sua obra?<\/strong><br>-Acho que sim. Considero-me um apaixonado pela vida e o amor \u00e9 o argumento fundamental.<\/p><p><strong>-Mas para combater o celibato, \u00e9 preciso ter algo a dizer sobre o outro lado&#8230;<\/strong><br>-Claro que na minha obra h\u00e1 vest\u00edgios de mulheres. Sempre senti uma grande atra\u00e7\u00e3o por elas. Neste momento, estou \u00e0 espera do dia em que a minha mulher chegue.<br><\/p><blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O mar est\u00e1 menos na minha obra do que se diz est\u00e1 menos no meu trabalho do que se diz. O que eu fiz foi fazer o que meu tio Milucho me disse: falar sobre os marinheiros e da gente humilde<\/p><\/blockquote><p><strong>-Outro dos temas da sua obra \u00e9 o mar.<\/strong><br>-Penso menos do que as pessoas dizem. N\u00e3o sei se o tratei tanto como se escreve, embora seja verdade que ele est\u00e1 l\u00e1. De facto, quando era novo e vivia em Darbo (freguesia de Cangas) ia pescar com o meu tio Milucho e ele dizia-me sempre que eu tinha de falar dos humildes pescadores e das coisas que lhes aconteciam, como viviam, e foi isso que tentei fazer, ouvir o meu tio.<\/p><p><strong>-Quer dizer que ele quase fez de si um programa como escritor.<\/strong><br>-De certa forma, sim. Vamos \u00e0 pesca e ele contava-me algumas coisas e dizia-me que tinham de ser contadas, que tinham de ser conhecidas.<br><br><strong>-Isso tem a ver com a poesia social, mesmo que seja um termo vago.<\/strong><br>-Nunca entendi a poesia social aplicada ao meu trabalho. Escrevi o que quis: se foi interpretado num sentido ou noutro \u00e9 uma coisa importante, mas n\u00e3o o fiz com a inten\u00e7\u00e3o de fazer parte de nada ou de ter consci\u00eancia de estar a trabalhar nesse sentido. Para mim as coisas s\u00e3o mais simples: era o que eu queria escrever. Depois apareceu o Celso Em\u00edlio a falar dessas coisas e eu achei que era bom e que eram necess\u00e1rias.<\/p><p><strong>-Mas, com o passar do tempo, h\u00e1 duas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o papel do escritor: a de se envolver na sociedade ou a de se concentrar no seu trabalho.<\/strong><br>-\u00c9 claro que a escrita exige concentra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que temos de dizer coisas que s\u00e3o necess\u00e1rias, n\u00e3o s\u00f3 para n\u00f3s, mas para a sociedade. N\u00e3o creio que umas coisas sejam contradit\u00f3rias com outras. No caso da Galiza, a tradi\u00e7\u00e3o de envolvimento e participa\u00e7\u00e3o social dos escritores \u00e9 muito forte, com muita consci\u00eancia e muita identidade nacional. Penso que este envolvimento e os seus resultados s\u00e3o bons. Depois, os escritores tamb\u00e9m t\u00eam de estar presentes em alguns festivais, apoiando os seus colegas, participando nas coisas.<br><br><strong>-E o tempo para escrever?<\/strong><br>-Essa \u00e9 a chave. Quando estava a escrever o romance, sentava-me \u00e0s quatro da tarde e escrevia at\u00e9 ao anoitecer. \u00c9 uma disciplina necess\u00e1ria. Passo a maior parte das tardes a escrever.<\/p><p><strong>-Ser ou n\u00e3o ser um profissional?<\/strong><br>-Escrever porque se tem de cumprir um contrato ou depois de receber um adiantamento. Escrever sob a press\u00e3o do sistema editorial parece-me errado. Prefiro o sistema anterior.<\/p><p><strong>-O que \u00e9?<\/strong><br>-Procura-se algo para ganhar a vida e depois escreve-se o que se quer, sem press\u00f5es e sem ter de aceitar encomendas porque se precisa de dinheiro. Penso que a literatura pode ser melhor desta forma. A pressa n\u00e3o \u00e9 boa para este tipo de escrita. Ainda mais. Tamb\u00e9m n\u00e3o percebo muito bem esta \u00e2nsia de publicar um, dois ou tr\u00eas livros por ano. Um escritor pode ser conhecido, no m\u00e1ximo, por tr\u00eas dos seus t\u00edtulos, n\u00e3o por ter publicado vinte ou trinta. Prefiro a ideia de escrever o que o corpo pede, porque os leitores tamb\u00e9m n\u00e3o podem ler tudo o que \u00e9 publicado.<\/p><blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00e3o percebo esta \u00e2nsia de de escrever um ou dois livros por ano. Um escritor s\u00f3 \u00e9 conhecido,no m\u00e1ximo, por tr\u00eas obras<\/p><\/blockquote><p><strong>-Bem, isso \u00e9 outro debate: os escritores devem ler mais do que escrevem ou vice-versa?<\/strong><br>-N\u00e3o, no meu caso \u00e9 como nos per\u00edodos. H\u00e1 alturas em que se come\u00e7a a ler algo e n\u00e3o se consegue parar, e h\u00e1 outras em que se est\u00e1 mais concentrado na escrita. Para mim, s\u00e3o compat\u00edveis. Depois h\u00e1 a releitura, que \u00e9 uma coisa que fa\u00e7o muito, de que gosto muito. Releio os livros que me parecem fundamentais.<br><br><strong>-Quais s\u00e3o eles?<\/strong><br>-Aprecio muito a obra de Ram\u00f3n J. Sender. Gostei quando o li e continuo nessa linha. Tamb\u00e9m fui um leitor da B\u00edblia, mesmo involuntariamente. O meu pai, devido \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o, ensinou-me a ler a B\u00edblia, mas tamb\u00e9m, quando falava comigo, utilizava muitas frases da mesma, de muitas formas fui educado na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Outra coisa \u00e9 a cren\u00e7a no aparelho eclesi\u00e1stico.<\/p><p><strong>-Algumas pessoas pensam que a vida dos escritores \u00e9 aborrecida. A sua n\u00e3o parece ser.<\/strong><br>-Eu n\u00e3o me aborre\u00e7o e n\u00e3o tenho muito tempo. Sempre preferi envolver-me em muitas coisas, participar, e fi-lo sempre que pude.<\/p><p class=\"wp-block-verse\">Publicado em La Voz de Galicia. Suplemento Culturas, 17 de setembro de 2005.<\/p><p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardino Gra\u00f1a decidiu ir-se embora para escrever. Ou para viver outra vida com o mar, a leitura e a gente humilde da Terra. Em setembro de 2005, La Voz de Galicia publicou esta entrevista com o escritor, na qual fala de literatura, das suas motiva\u00e7\u00f5es, dos seus argumentos e do facto de, talvez, o mar ter sido menos protagonista do que as pessoas que viviam junto dele.<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":477876,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-478089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista-pt"],"acf":[],"post_template":"entrevista","post_subscription":"no","pretitle":"","content_extract":"Para Bernardino Gra\u00f1a n\u00e3o h\u00e1 tempo para o t\u00e9dio. Quando \u00e9 altura de escrever, ele escreve. 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