Semper fidelis

Deve ser um costume do exército ianque ter um baile de gala antes de marchar para a guerra. Lembrei-me disso desde a época em Fort Apache. Foi feito, ele supunha, para que a notícia da marcha fosse suficientemente solene ou, também, para que algum oficial pudesse parecer digno, declarando que o regimento partiria ao amanhecer. …

O colapso que seremos

Um colapso não é um acidente. É um processo com um mau fim. Um processo que termina mal, embora todos saibam pelo caminho que vai terminar mal. Em muitos aspectos, um colapso é o resultado de não se querer compreender correctamente os sintomas. Os eleitorais, os económicos, os políticos. L’Effondrement (O Colapso) é uma série sobre todas …

Terças, quartas, quintas, sextas…

E onde vive: na realidade ou na ficção? Onde quer que esteja, coisas semelhantes acontecem: uma manipulação quase permanente do discurso para que a condição universal do espectador que está a ser um cidadão possa sentir-se calmo e surpreendido. Mesmo surpreendidos com a sua própria tranquilidade.

6 | Nem virtual nem dos outros

Nem virtual nem dos outros -Facebook, o que é isso?-Um website para mexericos.-E porque não pergunta ao Presidente da Câmara?-Porque ele vai responder da mesma forma que você. Mas é você que é o responsável pela cultura, deve saber.-É claro que sei. Estamos a trabalhar nisso. Esta semana vai ser uma semana espectacular no Facebook.-Melhor …

Imunidade do rebanho 

Há muitos dias em que somos uma candura ligada a uma relíquia de progresso. E não sabemos se a corda à volta do nosso pescoço é condenação ou libertação. Quando éramos jovens ouvimos as promessas de apartamentos de três quartos, mas em vez de receber as chaves na mão foi-nos dada uma espátula para raspar …

“O teatro é vida concentrada”

Peter Brook (1925-2022) visitou Santiago de Compostela em 1998 como protagonista da primeira edição do Festival Millenium. Duas obras suas fizeram parte da programação, Je suis um phénomène e Oh les beaux jours. Brook explicou uma e outra vez o que considerava teatro e o festival levou aos espectadores a um fechado cine Capitol que para o director parecia ter a vantagem de estar muito próximo da ruína. A semana passada (2 de julho de 2022) morreu Brook e desde 1998 voltaram uma entrevista, duas críticas e uma conclusão. A entrevista e as críticas dos seus dois espectáculos em Santiago seguem aqui. A conclusão é que pese ao prestígio, o reconhecimento, a inteligência e mesmo o sucesso de Brook, o teatro não lhe fixo caso.

Madrugada chegou

Madrugada chegou Ele lutou a noite toda e não desistiu. Desde que tinha entrado, estava tão infeliz. Empacotar para cima e para baixo no campo, apesar de jogar fora de casa. Passou pelos grupos à procura de rostos, tentando encontrar um olhar que lhe devolvesse alguma bondade. Foi uma operação de apalpação delicada, rápida e …

Jogo de pastiches

Não perdi muito tempo a ler George R.R. Martin até para testar a ideia de que o pastiche é o género por excelência da contemporaneidade. Desta particular contemporaneidade.

Tensão trabalhista não resolvida

Toda a tensão trabalhista que tão claramente se percebe na fotografia não procede de um histórico conflito com a patronal, do incumprimento do regulamento de riscos trabalhistas ou de que esse telefone, filho de uma década de elementos fixos, soe ininterruptamente como um martelo que golpeia desde o passado. A tensão trabalhista que pára sobre …

Histórias de um homem que contou histórias

Xabier P. Docampo desapareceu na semana passada. A memória traz-nos de volta à sua atitude de contador de todas as histórias e àquele humor que ele praticava para fazer descer os santos e subir o povo. (Há quatro anos do texto e mais algumas das histórias, mas continuam, continuam as mesmas).

Matéria gris

A caixa era feita de cartão e, quando aberta, as abas balançavam para revelar um recipiente de cerâmica de um cinzento muito, muito macio. Quase branco. No cartão foram impressos todos os símbolos de reciclagem, eco-sustentabilidade, a segunda vida das coisas. Para aqueles que se lembraram, a caixa tinha algumas semelhanças com a embalagem de …

Nervos não normalizados

O texto é datado de 20 de Janeiro de 2009. Agora é arqueologia, mas na semana passada falou-se sobre isto sem ir ao âmago da questão. As pirâmides são melhor explicadas a partir do exterior.

Sobre as paredes

Sabe como é. O verão em Ourense. A única onda que sobrevive é a onda de calor. Tem os calendários de toda a sua vida. Os de uma cidade de funcionários públicos onde não se é funcionário público. Tem os horários de um mundo que não fica quente ao meio-dia. É preciso ir trabalhar. Toma-se …

No meio do meio

O que é transgressão para um espectador de teatro é não assistir ao palco. Também não é para assistir à reacção do resto da audiência. O revolucionário é olhar para o espaço entre o palco e os assentos. Uma terra de ninguém onde tudo acontece.

Difícil triângulo amoroso

Essa linha tem um horizonte. Qualquer pessoa pensa nos horizontes como uma linha decisiva, mas como toda a invenção humana, é irregular e comido por dúvidas. Mas é um horizonte e há espaço para coisas que queremos e coisas que não queremos. Para alguns, este horizonte é uma fonte de orgulho porque reúne um passado …

Que a força nos abandone

Quando a Constituição chegou, a Star Wars já cá estava. O ocidental galáctico com paternidades confusas chegou a Espanha antes do grande texto. Quando Luke ainda não sabia quem era o seu pai, eu estava a olhar do galinheiro do cinema Xesteira em Ourense. Foi em 1977 e agora é desaprovado dizer que o filme …

Ramo

Tinha caído ali mesmo. Rebentamento. Como se um raio o tivesse atingido e dividido. Mas sem a quebrar. Tinha caído verticalmente, sem drama, sem sinais, sem câmara lenta. Ela morreu mais instantaneamente do que um sachê descafeinado. Ele estava ao lado dela e levou quatro ou cinco segundos a reconhecer a gravidade do caso. Mas …

Aristocracia amarela

O desporto está a passar do espectáculo para a narração de histórias. O desporto tem este épico de baixo nível que é dramático sem qualquer drama e bélico sem qualquer guerra. Pode fazer com ele o que quiser, excepto talvez ignorá-lo porque é quase impossível viver e não ter desporto à espreita em todo o …

5 | Os anónimos são desconhecidos

Foi apanhado ao lado da farmácia. Entrou pela porta dos fundos de um Audi. Na frente estava o presidente da câmara, motorista, e o comandante do posto da Guardia Civil o presidente da câmara, motorista, e o comandante do posto da Guarda Civil. O prefeito olhou para ele no espelho retrovisor.-Não olhes assim para mim. …

O raio curvo

Uma das grandes vantagens das armas do imperador Ming sobre os terráqueos do tempo de Flash Gordon era o raio curvo. Embora fosse uma arma convencional, tinha a capacidade de disparar sobre inimigos protegidos em esquinas. Não valia a pena esconder-se porque o raio saiu da arma, avançou numa linha irregular até chegar a um ponto, virou-se e localizou quem quer que fosse que não se baseasse na física convencional. As caixas de sentinela tinham deixado de ser um abrigo. Não se pode dizer que os EUA, a Rússia, Israel ou o Primeiro Ministro britânico não estejam a testar armas como a viga curva. Mas ela existe.

A gabardina de Schrödinger

Poderia ser a altura em que o Inspetor Gadget governou os desenhos animados com essa estupidez salva por uma sobrinha esperta. Ou o tempo em que os camiões não tinham travões elétricos ou passaram muito mal a sua IMT porque não havia nenhum. A fotografia é tão real quanto uma fotografia pode ser. Nem as …

13 maio 2022. Nu

Sinto-me nu. Desconfiado. Mas não ambas pelas mesmas razões. Sinto-me nu porque já não sou presidente da Galiza, Galiza, Galiza. E eu sei que tenho de ser, mas também não é que eu goste. Tenho sido presidente, presidente, presidente durante tantos anos que agora é como mudar a minha vida sem mudar o meu fato. …

O pop não diz adeus

Para o Siniestro Total, as palavras que marcaram o fim de The Beatles não são válidas. “E no fim, o amor que recebeste é igual ao amor que deste”. Os acordes não foram por esse caminho, mas numa tradução mais literal* teria servido para aquela versão da banda de Liverpool que o Siniestro Total não …

O sol do meio-dia nasce cedo

Levanta-se cedo e o sol já está ao meio-dia. Os arredores diretos do hotel são quase europeus: relvados regados, terraço, guarda-sol, flores. Também não é um luxo, mas aqui a perspetiva desempenha um papel e as circunstâncias são sempre uma chatice. Há um muro, claro. Há sempre um muro que separa as coisas boas das …

Ourense tem mais esplanadas do que Liverpool

Em Ourense, muitas linhas são cruzadas. Numa manhã que antecipa o Verão, o hino galego pode atravessar os altifalantes da classe trabalhadora e as esplanadas de vermute com muitas cabeças grandes e sem gigantes. Os ramos de flores maternas cruzam-se com os cruzamentos dos maios e a sua copla. Os Beatles também se cruzam. Não os Beatles. A memória sem quase uma banda sonora do grupo musical mais importante da história

29 abril 2022. Adeus

GalizaAno JacobeuManuel: Lembro-me de muitas coisas neste momento. De quando o conheci na casa de JMRB, de quando me pediu para vir, das tensões das intrigas e das transferências. Um dia, passaram por perguntar quem notificar em caso de rescisão e a possibilidade real de isso poder acontecer deixou-nos a todos um pouco indiferentes. Mais …

Crónica da crítica

O meio tempo deixa-me melancólico. Ao contrário do resto dos galegos, tão determinados a culpar tudo pela humidade. O tempo indefinido torna-me melancólico como espectador e, em vez de ser objetivo, como todos com os seus interesses imediatos exigem, dá-me apenas a cabeça para ser coerente. Foi no final de uma daquelas festas musicais que …

22 abril 2022. Impossível

Não é que todos não compreendam, é que não é conveniente para eles compreenderem, por isso dão explicações de conveniência. Tenho de o explicar entre os imediatos e alguns menos próximos porque se fazem de parvos como se fosse um assunto emocional, mas apesar do facto de por vezes me ser dado a fazer como …

Quem se importa com isso?

Todos têm uma opinião sobre teatro, mesmo que apenas um décimo daqueles que têm uma opinião vá vê-lo. É mais fácil dar uma opinião do que ir ao teatro, e é por isso que há mais pessoas a dar a sua opinião no Twitter do que ir aos teatros. As duas actividades não são incompatíveis, mas os olhos sofrem infinitamente menos quando vão para o teatro.

15 abril 2022. Diário. Sério, sério, sério

Bem, já está resolvido. Vou explicar porque é engraçado tanto negócio com a sucessão, tanto partir e voltar a juntar as peças. Mas não é. Havia apenas uma maneira de isto funcionar e estava claro desde o início. Outra coisa é que todos têm de se afirmar A questão é que pretendo continuar a gerir …

12 abril 2022. Diário. Madrí, Madrí, Madrí

Em Madrí é tudo maior. Não é uma sensação. Tudo é maior. As pessoas também são mais altas. Não sei se vou ter de pôr alças no calçado porque depois de me encontrar com o Felipe VI e o Pedro Sánchez pareço baixo e isto precisa de ser estudado. Mas é preciso medir porque alguém …

Cara de cu

Entre as imagens subliminares, as meias verdades e as correspondentes meias mentiras, a correção política, a educação, entre o que pode ser dito e o que não deve ser pronunciado, a sinceridade avassaladora e a diplomacia, entre as hipérboles e as metáforas, cada dia vai sendo mais difícil ser franco. Não era necessária a aparição …

Confundir as curvas com as alegrias

Pode ser o capricho da propriedade ou a debilidade do Estado perante o indivíduo. Pode ser o caráter sinuoso que chega ao mapa desde a identidade coletiva. Alguma coisa se torce no imediatismo do horizonte, no qual a Academia pode encontrar uma reafirmação da beleza oitocentista. Uma vitória do bucolismo sobre a tirania da práxis. …

1 abril 2022. Diário

Me chegou a hora. Me tinha que chegar e me chegou. Agora me tenho que mudar a cabeça de sítio e pôr-me a pensar de outro modo. Porque a coisa não está a funcionar bem. Agora que pensam que passou o aperto é quando estou no aperto. Não se me nota a autoridade.Problema A) Priorizo …

Ruído e nozes

Ruído e nozes Deve haver um efeito borboleta entre o aparecimento de Motomami e o momento em que Will Smith se transforma no personagem que interpreta em The Suicide Squad, até mesmo menos violento. Pode ser uma relação primitiva, mas certamente não deve ser simples. Todos queremos acreditar que sim, mas o mundo não muda: …

4 | Se o telefone tocar à meia-noite

Se o telefone tocar à meia-noite Volta a casa. Liga a televisão. Os Lakers estão a ser impiedosamente maltratados. Faz a revisão da sua lista de tarefas enquanto sente a falta do Trecet . Tem de fazer o plano das festas. Fazer um programa de festas é como ser treinador: todo a gente sabe como …

O que diz o mundo, o que dizem os rumorosos

Não sei que sentido tem que as galas de entrega de prémios do espetáculo não sejam consideradas um espetáculo. A sério, quero dizer. Não sei se faz sentido que se comportem de forma diferente a todo o resto de trabalhos que o mesmo setor produz. Talvez seja um ato de rebeldia, um ato emotivo. Um não querer fazer tudo que se faz durante o resto do ano.

18 Março 2022. Diário

18 Março 2022. Diário Acho que exagerei um pouco. Fico como exagerado . O EGP tem razão. Mesmo que não o diga. Não estou habituado aos comícios. Dediquei toda a minha vida a isto, mas levantar a voz não faz com que eu tenha mais autoridade. IDA, apesar das caras que faz, lida melhor com …

Doutrina do choque

Isto que toda a gente chama pistola poderia chamar-se marginalização, desemprego, despejo, cortes de energia, fome. Poderia chamar-se despedimento, cortes salariais, rendas impossíveis, hipotecas impagáveis, censura. Poderia ter de nome insulto, desprezo, ignorância. Poderia chamar-se miséria ou barbárie ou a soma de todo o anterior numa única palavra que nunca perde o sentido: guerra. Isto …

Telegramas da frente

Na exposição Peter Lindbergh na Corunha há uma fotografia que resume a posição da Europa sobre a guerra. Também pode ser um resumo da posição da Europa sobre a paz. A paz é uma fotografia. A paz é uma questão estética, um reclame no meio de uma aparência instável, entre os símbolos de fazer amor …

2 Março 2022. Diário

É assim que funciona. Sei que a emoção é fraqueza, mas não posso deixar de me emocionar em público e deveria ter treinado muito melhor para que se entenda que a estabilidade é o principal valor do meu caráter. Serenidade, calma, estabilidade. Um pouco de umidade não mancha tanto e talvez se veja que eu …

Back in the URSS

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não existe. Não existe apesar de lhe devermos uma grande parte dos nossos salários extra, e de termos sido um pouco desleais quando desapareceu. Até mesmo ingratos. A URSS não existe e a realidade é muito contundente com isto, por mais que algumas cabecinhas vejam sombras anteriores e alguns meios de comunicação confundam estar longe da realidade com equidistância.

Ligeiramente despenteado

E de repente, num contexto que se inventa como perfeito, alguém altera a narração e a imagem é descomposta o suficiente para chamar a atenção. O desvio da atenção é ciência de magos e de alguns políticos com domínio cénico e da comunicação. Mas, como Manuel Luís Acuña costumava dizer, há fendas e quase tudo …

De votos

Quem vir cinema não muito recente identificará uma expressão muito semelhante à da fotografia no fim da primeira parte de O Padrinho. Quando Michael atinge o poder absoluto depois de eliminar, um a um, os inimigos da sua família. Na mão direita, o Corleone mais novo, teria usado um relógio em vez de duas pulseiras …

Madrid 2022

Quase nunca passava por Lavapiés. Ele seguiu a luz do sol na rua e foi atingido pelas enormes letras gritando Drama! na fachada do teatro Valle-Inclán. Não foi o tamanho da palavra que chamou a sua atenção, mas o seu contexto como leitor. O que quer que a palavra tivesse significado dizer já estava no …

Praça Vermelha 1993

As traças nascem no esquecimento. Nascem e medram comendo o feltro dos chapéus, o tecido das bandeiras. Merendam os livros de história e vão deixando nas páginas pequenas erupções vulcânicas como lagoas para o porvir. Agora mesmo estarão no meio de uma enchente de palavras como revolução, proletariado, camarada, e irão deixar para a sobremesa …

Reprovar a profissão

E mesmo sem ir ver como vive Gio, a mulher de Cristiano Ronaldo, ligas a televisão ou qualquer outro écran e começam a passar-te pela cara assuntos para gabar-se. Assuntos que parecem coisas de ricos e que, embora não tenham uma ligação aparente, fazem ver que existe um mundo impossível para um grande número de …

Jack and Jackie, Miles and Frances, mamã e papá

O automóvel tem motorista. A Jackie não se imagina num carro de outra maneira. Gosta de Cadillacs, mas não tem problemas em ir num Lincoln descapotável, por mais preto que seja. Não concebe conduzir através da cidade. Demasiadas coisas para prestar atenção. John vai ao seu lado. É alto, loiro e tem a promessa certa …

Sexo, verdades e videocassetes

A melancolia invade tudo, tal como a vocação da Rússia para fazer-se proprietária da Ucrânia. O mesmo que a Alemanha a comprar a Polónia ou a Espanha a enviar juízes para a Catalunha. Não é a melancolia daqueles que têm falta de tudo, mas sim a sensação de perda sentida por aqueles que já têm …

Previsor inglês

Pensou no futuro e começou a arrumar os seus objetos classificados familiarmente; cobriu as prateleiras da memória, enfrentando a árdua tarefa seletiva de planificar um tempo ainda por viver. Não quis deixar nada atrás, prevendo todos os detalhes que poderiam ter decidido a vida. Enfrentou-se consigo mesmo e com o comportamento do futuro, calculando as …

Duas colonizações

O Níger está, em muitos aspectos, no coração da África. Da África que, por alguma razão, chamamos de negra. Sofreu duas colonizações muito distantes no tempo e não conseguiu superar nenhuma delas. A primeira das colonizações do Níger foi muçulmana. Economicamente adaptável aos territórios que ocupava, alterou a organização social original e acabou por se …

Chegar de noite

Chegar de noite a qualquer local desconhecido é desorientador. Subir a um carro para percorrer uns quilómetros de avenidas largas relativamente alumiadas só soma um pouco mais a ansiedade do viajante por se situar. Há longas retas e rotundas, como a tiralinhas. A luz é fantasmal e a distância fá-la intermitente. Depois desaparece a iluminação …

3 | Tortas e peixes

Quando chegou ao local do mitin, as suas habilidades veteranas de canalização fizeram-no desconfiar. Ele desceu as cadeiras enquanto cumprimentava as pessoas que já estavam esperando. O sistema de endereços públicos não tinha chegado e ele teve o impulso de fazer um telefonema. Mas como o telemóvel era seu, ele pensou na economia de meios …

23 milhões de galinhas / 783 títulos

Os números não fazem a sociedade. Só a representam. A literatura é rebelde a lutar com estatísticas e no entanto, há momentos em que se torna inevitável: a Galiza passou por ser o país de um milhão de vacas. Mas mais do que isso, é o país dos 23 milhões de galinhas. Isso em 2017. No mesmo ano em que este mesmo país publicou 783 títulos entre livros e brochuras. É evidente que as galinhas não leem.

Que é que tu queres, cabrão?

Que o sol estivesse há duas horas a presidir o horizonte matinal não era por causa da sua alegria. Saltou da cama, vestiu os calções e foi a correr para a cozinha. Mamã, vou buscar o pão. Olhou para o relógio e acelerou o passo. Entrou na padaria à procura do balcão pequeno. Atrás dele, …

Eu tive uma quinta em S. Amaro

A melancolia pode matar. De facto, mata. Os factos não são conhecidos porque ninguém pensa que sejam relevantes ou dignos de mudança. A melancolia mata como mata a burrice ou a ignorância. Ou a saúde mal atendida. Mata como matam as contas mal feitas. Também não faz falta ser tão dramáticos… Mata como mata a vida, mas neste caso não lhe damos a importância que tem. Estamos em guerra contra a melancolia, mas não percebemos porque é que estamos a perder.

Mas rir

Que um homem fale pelas mulheres como se soubesse que dizer significa que é parvo ou presunçoso. Não se descarta as duas coisas no mesmo pacote. Por isso só vou falar da imagem. A fotografia de mulheres abrigadas pela cobertura metálica da Caixa Ourense circulou pelo mundo digital sem a assinatura do seu autor e …

Contra Oira

Seria muito mais fácil contra Oira. Caminhar ao longo da margem do rio, entre os fantasmas de velhos edifícios abandonados e os passos civilizados de pescadores quase furtivos. Seria mais leve caminhar a olhar para os remansos como a calma que chega depois de se tomar uma decisão. Por muito rio que reste, por muita …

Reconstrução da fantasia

Mudou a estória e pediu à Polegarzinha para ela subir. Sobe aqui. Levou-a de visita a uma floresta onde todos os faunos erguiam glórias com os seus instrumentos de vento. Sobe aqui e segura-te, disse-lhe, que as travessias são movimentadas. Foi levando-a por aquele país onde o sol parecia pequeno e as sombras eram moles, …

Leituras políticas da paródia e o capital

Até que ponto está um espetador confinado nos seus próprios preconceitos, ou nos dos outros? Porque é que aceitamos numas obras o que rejeitamos noutras, e porque é que gostar de um artista acaba por se parecer tanto a ser adepto de um clube de futebol? Vamos considerar, hipoteticamente, que Paolo Sorrentino é muito mais …

Desmontando-se a si mesmos

Um dia as flores, as fantasias, os cabelos dos pajens, a meditação e a algazarra dos fãs chegaram ao fim. A fantasia das viagens e o mundo em tecnicolor chegou ao fim. Um dia, alguém percebeu que, além do amor, muitas outras coisas eram necessárias. Naquele dia os Beatles desceram do terraço onde coexistiam sargentos …

Acordes e desacordos

Alguém disse uma vez que na música popular existem duas categorias: The Beatles e o resto. Cinquenta e dois anos após a sua separação, havia poucas coisas novas para ver sobre a banda mais influente de todos os tempos, mas Get Back foi uma delas. A documentação de Peter Jackson sobre as horas ilimitadas de gravação do que foi chamado Let it Be prova, mais uma vez, que há sempre uma diferença entre o grupo e o resto. Mesmo no final. Voltar pode ter sido um final, mas não foi o declínio.

A mochila moral

Nós os europeus nunca abandonamos a Europa. Vem connosco, às costas, em forma de passaporte, vacinas, breviário linguístico, pomadas protetoras, meias de algodão, repelente de mosquitos, telefone da embaixada e de uma superioridade moral que nenhuma história universal, por mais objetiva que seja, pode justificar. Viajamos com a história na mochila e quase nunca conseguimos …

Pelo reto caminho

No Verão, a cidade suava pelas pedras. Entrei na mercearia e o senhor Afonso virou-se, com a sua bata axadrezada, para me repreender pelo atraso: Já te disse que tinhas que ir pelo caminho reto. Então mandou: Pega na garrafa de Marie Brizard e leva-a ao senhor Ricardo, da Caixa de Poupança, que hoje tem …

Reparto de poderes

Avançava pelo corredor, apercebendo-se de que a rotação da Terra não era rápida o bastante para ele. Faltava-lhe paciência para esperar os ciclos que põem dia e noite sobre as casas, e com lentíssimo desespero ruminava as desculpas de mau pagador. Avançava pelo corredor com as imagens claras: haverá sorrisos de cumplicidade e haverá sorrisos …

Quatro quilómetros para casa

Quando respondeu, estava a quatro quilómetros de casa. Estás a ouvir, andam a dizer por aí que vocês já não estão juntos. Faltavam quatro quilómetros para casa e ele levava duas mochilas para encher o frigorífico, porque havia queixas quanto à frequência com que ia às compras. Iam cheias, para compensar a viagem, daqueles alimentos …

Carta de Theo

Caro Vincent: Espero que estejas bem e que Ibiza tenha o clima que andavas à procura. Amesterdão está a ter um Verão calmo. Muitas, muitas pessoas e as mesmas dúvidas de sempre. Acho que devias pensar seriamente em passar algum tempo aqui. Agora é a altura certa. Há algumas casas discretas de Hoekenes, junto ao …

Estação de autocarros

Sair do avião e encontrar uma estação de autocarros. Devem ser quatro horas da manhã. Tudo parece tijoleira abandonada, quiosques soltos, corredores curtos com limpeza talvez quinzenal. Talvez não. Talvez seja o pó do deserto que se anuncia. Passar pela alfândega e a sua falta de preocupação. A curiosidade dos olhos dos viajantes que permanecem …

Podemos falar

Podemos falar de futebol, de ovelhas, de feiras em todas as aceções do termo, da confusão de palavras, da confusão de dor, do que o povo não mande, do trigo bom, do trigo mau, do pão de Cea, da marca que deixavam nos caminhos os carros de bois, do mau que é o governo, do …

Dramas e angústias

A África é uma daquelas partes do mundo que não é a Europa. A África gostaria de ser a Europa, mas não lhe deixam. Alguém decidiu há muitos anos que a África deveria ser como a Europa e mudou-lhe os costumes, a língua, semeou algumas ruas com um certo carácter ideal, espetou-lhe árvores e ditou-lhe …

Venderemos nos

Quando o pai vendeu a terra, não sentiu dor. Talvez alívio. Precisava mais de novidades do que daquela condena segura da lex rural. Estava cansado da paz sem horizonte, da sesta nos verões, das sombras dos jardins e dos bichos da horta. Estava cansado de tudo e tudo lhe parecia imposição. Quando o pai vendeu o terreno com …

Teoria do centro

O centro é uma coisa e os subúrbios são outra. Tanto na política como nas cidades. Tanto na filosofia como na rádio. Nós governamo-nos sob a ideia de que o importante está sempre no centro, colocado ali com exatidão hierárquica, com mando no praça, seguindo o exemplo de um urbanismo mentiroso, porque o centro do …

Saber nadar

Havia um graffiti em Ourense: O filho do peixe sabe nadar. Era monárquico porque explicava o funcionamento da monarquia e era antimonárquico porque qualquer explicação do funcionamento da monarquia é razoavelmente antimonárquica. Não devemos desprezar o que dizem paredes nem como terminam as imagens porque em ambos casos há um verso do futuro, um avanço da justiça …

Rock Duro

Do outro lado do canal que rodeia o Hard Rock Café estacionou a ambulância. Enquanto alguém padecia um aperto, o resto salivava com a possibilidade de onças de carne grelhada e fotografias de músicos imortalmente famosos e mortalmente compráveis. As ambulâncias em Amesterdão são amarelas (os submarinos mais famosos da história são fictícios). Em frente ao …

Frasco de nervos

Os televisores mediam meio metro de largura. Talvez fosse melhor dizer profundidade. Era por causa do tubo de raios catódicos: quanto maior o écran, maior tinha que ser o fundo. Olhar para a parte de trás do televisor era quase tão interessante como olhar de frente, exceto quando davam o Eliot Ness. O mais interessante das visitas do …

Desfile Nupcial

Tinha percorrido todo o supermercado em busca de uma oferenda. Vira na televisão como certas aves australianas chamavam pela outra parte do casal, construindo um ninho no qual de um lado da entrada colocavam flores frescas e do outro um monte de escaravelhos recém apanhados. Foi às prateleiras, verificando as etiquetas para ver se podia …

Sushi para dous

Há anos recebera a notícia da sua morte como quando uma relação termina: circunstâncias que mudam sem sentido. Portas que desaparecem dos corredores das casas de um dia para o outro. E todos os dias a bater contra a mesma divisória. A notícia tinha-lhe sido dada sem rodeios e pairou sobre ele durante muito tempo. Mesmo sem nenhuma razão.  A notícia …

A solidão do assassino

Sentiu o repetitivo manifestar-se da campainha e comdesagradomal disfarçado, levantou-se e dirigiu-se à porta. Ao entrar no corredor estreito, acendeu a luz e pensou que, no caminho de volta, deveria levantar as persianas para deixar entrar um pouco, o sol da tarde. A campainha voltou a tocar impacientemente. Contrariou-se ainda mais quando percebeu que pela …

Também leio a Kierkegaard

Estava a dormir quando a pressão na bexiga o acordou. Levantou-se incomodamente alterado pela necessidade. Pôs o piloto automático, disposto a navegar na escuridão do quarto. O sono levantava ainda ondas de nevoeiro no seu entendimento. Lá fora, os pássaros cantavam nos sicómoros . A bexiga mandou recado novamente; dois passos à frente. Deitou a mão ao …

Tanta Felicidade

Tanta felicidade deitava sobre a vida passada a mesma luz que deita sobre o mar o pôr-do-sol. Não havia queixa no silêncio deles, enquanto observavam o recuar da floresta a desde a sacada da casa. Quase não falavam nas horas serôdias da tarde; o necessário tinha sido dito. No crepúsculo não arejavam os problemas, calculando …

O que o amor tem a ver com as bicicletas

Não é verdade que os holandeses sejam um povo tranquilo. Talvez tenham calma até montarem numa bicicleta e o mundo mudar para eles. O ponto de vista muda. Andam mais alto que os peões, mais alto que os condutores. Muito mais alto do que aqueles que andam no banco de trás de um carro oficial. Os …

Café para toda a Humanidade

O lugar mais visitado do Rijksmjuseum é o bar. Está estrategicamente colocado ao lado do foyer e tem um sistema de mesa quente: está tudo ocupado entre as nove da manhã e as cinco da tarde. Um sistema de rotação muito elevado. Porém não é barato. Por outro lado, o bar do Museu Van Gogh, que também …

Será que as empresas de eletricidade sonham com ovelhas sintéticas?

Talvez as ovelhas não distingam a qualidade da sombra e andem a consumi-la onde haja, sem balar, sem entrar em disquisições, sem parar para pensar se essa sombra corresponde à sua classe social. Foi o cristianismo que trouxe as ovelhas para o imaginário comparativo da humanidade. Cordeiro de Deus e todas aquelas metáforas de qualidade …

Sistema de uma caída

A humanidade mete medo. Não o pânico produzido pelas armas nucleares ou revisar a casa de Anne Frank em detalhe – um sobrenome incrivelmente difundido em todo o mundo – para perceber que o seu conforto como refugiada interior respondeu a um sistema de barbárie. A humanidade mete medo quando percebemos que durante um tempo …

2 | De braços cruzados

Passar a vassoura em frente à cara não é muito delicado. Mas é o dia e a romaria. Molhas a vassoura na água com pós, colocas o cartaz no contraplacado que ainda tem os restos das eleições anteriores, pões a vassoura no meio do cartaz e passas para cima e para baixo. Aí ficas, colado …

Step inside

Para entrar no bosque é preciso aceitar três condições. As árvores são metódicas, resistem em pé, sem alinhar, ao melhor sol do dia. Agitam suavemente os rumores como os corredores depois de uma demissão. Há um monte sem adornos, alguns sinais de abandono, um caminho sem alternativas e uma cancela que civiliza o conjunto. É …

O romantismo é o que nos fode

Como somos uns intelectualoides invertemos o processo de compreensão e pensamos que primeiro é a mensagem e depois as coisas. E repensando deixamos que o que sentimos no estômago mude o discurso até que os interesses pessoais pareçam razões coletivas. O Twitter ajuda muito.  Como somos intelectualoides é desnecessário citar a Friedrich e, precisamente por causa do mesmo, é …

Discurso da moviola

Os tempos caem, o futebol permanece. Viu a bola preta chegar e assustou-se um pouco com a responsabilidade de estar na linha da frente. O tempo passa, mas o futebol permanece. Recorreu à memória, parando o relógio, e não recordou que nunca tinha gostado de futebol, nem sequer quando era criança. Tinha refletido algumas vezes …

Todo o que pica é peixe

Este homem com cana e peixe viveu toda a vida rodeado de um halo. Mas não era de santidade política. Para uns foi Fraga Iribarne, para outros foi Fraga e para muitos outros, Dom Manuel. Uma soma de uniformes diferentes que, na prática, só disfarçavam uma ambição pouco quotidiana e a capacidade de manobra para …

Previously on Tondela

Todas as caras que eu vejo remetem a uma anterior. Vivo em permanente déjà vu e cada rosto evidencia desmemória ou extravio. Vivo os passeios sem tranquilidade porque cada rosto que passo nas calçadas, em vez de gritar igualdade como seria lógico em tempos desequilibrados, grita: Não te lembras de mim? E não me lembro. …

1 | Ou começas a somar ou já estás a subtrair

Arrimou o carro por baixo do depósito de água das Cancelas. Acabava sempre por parar um tempo ali. Saiu do carro, o carro dele, e viu como Santiago desce em direção à catedral. Em todos os relatos há algumas nuvens e assim estava a cidade, um pouco iridescente aos seus olhos. Devido ao efeito dos movimentos do …

A culpa por tudo

Ou estamos velhos ou estão velhas as palavras de ordem. John Lennon faria 80 anos em 2020 e Yoko Ono tem a saúde delicada. Formaram o casal artístico do século XX mesmo além do outro grande casal do mesmo século: Lennon-McCartney.

A crítica não foi o pior do teatro galego

“A crítica non é o peor do teatro galego”. A frase é dun crítico de teatro, pronunciada contra finais da década do 2000 e, ao tempo de ter un carácter preventivo, encobre unha falsidade despachada como inxenua. Nesa altura, como agora, hai que entender que se algo non é o peor de algo é que os dous elementos forman parte dun mesmo conxunto. Pero non. A crítica nunca formou parte do conxunto teatral. Nos últimos corenta anos a crítica foi moitas cousas, pero nunca estivo integrada como parte dun sistema escénico demasiado centrado no inmediato. A crítica foi unha sospeitosa habitual, unha reclamación permanente, un argumento complementario para congresos, semanas, festivais, mostras e debates escénicos. Foi moitas cousas, pero nunca acabou de formar parte dun conxunto que a precisaba como altofalante pero non como unha xeradora de argumentario.

All you need is you

No preciso momento que acabou All you need is lovecomeçou a ressaca. Foi um movimento impercetível ainda que imparável. Como quando acaba a bebedeira. Como quando o São Paulo caiu do cavalo e lhe veio um ataque de lucidez. Durante 30 segundos ficou lúcido e tudo resplandecia. Depois levantou-se e carente de inteligência como estava tentou …

A vida continua

Talvez se odeiem. Talvez sintam uma pela outra isso que a imprensa de Madri chama ódios africanos, mas que, tendo em conta a estatística dos costumes, são bastante galegos. Pode ser uma indiferença ativa. Ou solidão. Cruzam-se porque uma vem e a outra vai. Uma vem do supermercado e a outra vai à missa. Dieta atlântica. Talvez tenham …

Sem pátria não há espetáculo

Ainda estou confuso com essa ideia escapista de que a infância é a pátria do homem. Como se fosse uma saudade primigénia, irrecuperável e, portanto, injusta. Como se a pátria fosse o passado e não a vontade.   Mas quando a pátria é exibida como um trailer de cinema, quer dizer que vai haver pancada. E …

Capela Sistina

Era uma feira e mesmo as pessoas de missa diária tentavam obviar a proibição de tirar fotografias. Punham-se meio de lado e, como quem não quer a coisa, tentavam meter no telemóvel um pouco da grandeza dessa história que o teto e as paredes pretendem contar. É uma história, e talvez até uma boa história. …

Hamlet Acusador

Tinha o amor doente de Parkinson. Tinha o coração ferido, de aurícula a ventrículo, pelas flechas da ofensiva fortuna, e cada vez que começava a declamar, um mundo de borboletas agitava-lhe o corpo e trazia-lhe de volta a recordação da cara a boiar entre os nenúfares. Subia às tábuas seguro de si mesmo, mas assim …

Norma & Ivo em Monmartre

– Subimos e descemos?– É ir por ir… Atravessaram as sombras das árvores e deixaram-se rodear pelos turistas de outubro. Um funicular é um elevador que respeita a lei da gravidade. Entraram, mas em vez de olharem para a paisagem, que começava a ser outonal, deixaram-se levar pelas coreografias dos selfies… – Antes tudo tinha …

O soldado no inverno

No inverno, não lutamos. Ficamos no abrigo dos barracões, enquanto fora a chuva impede qualquer avanço, qualquer defesa. Chove quatro meses por ano. Todos juntos. A chuva embebe a terra até formar um metro de combinação: intransitável, inutilizável, um material sem tabela periódica. Uma matéria a meio caminho entre sólido e líquido, como a melancolia. …